Por Ana Mafalda Macedo, UCSP Carvalhido
Pergunta clínica: Deverão os doentes com doença renal crónica (DRC) evitar em absoluto os anti-inflamatórios não esteróides (AINE’s)?
Desenho do estudo: Apesar dos doentes com DRC serem aconselhados a evitar a utilização de AINE’s, o nível de evidência para esta recomendação é desconhecido. Desta forma, os autores propuseram-se a estimar a associação entre a utilização de AINE’s e a progressão da DRC. Para isso realizaram uma revisão sistemática com meta-análise, tendo por base estudos em doentes com idade igual ou superior a 45 anos obtidos por pesquisa de várias bases de dados.
Resultados: Foram identificados 5 estudos coorte, 1 estudo transversal e 1 estudo caso-controlo, tendo sido selecionados para realização da meta-análise 3 dos estudos coorte. O número de participantes variou entre 801 e mais de 1,5 milhões, com uma idade média dos participantes compreendida entre os 45 e os 76 anos. A progressão da DRC foi definida como um declínio estimado da taxa de filtração glomerular ≥15mL/min/1,73m2. Nos doentes com DRC estadio 2-3 (taxa de filtração glomerular estimada de 30-90 mL/min/1,73m2), a utilização de AINE’s em doses padrão não se associou a um risco aumentado de progressão da DRC. Por outro lado, verificou-se uma associação modesta entre a utilização de doses elevadas de AINE’s e progressão da DRC (RR=1,26; IC a 95%, 1,06-1,50). Não se verificou associação com a utilização de doses moderadas de AINE’s (OR=0,95; IC a 95%, 0,86-1,07). Os autores destacam que a definição de dose elevada vs. dose moderada não foi objectivada em qualquer um dos estudos.
Conclusão: A utilização de doses baixas ou moderadas de AINE’s parece ser segura em doentes com DRC moderada (estadio 2-3). A utilização de doses elevadas de AINE’s deverá ser evitada.
Comentário: Apesar da evidência favorável à utilização segura de AINE’s em doentes com DRC moderada, deverão ser tidos em conta alguns aspectos limitantes deste estudo. Por um lado, os estudos incluídos na revisão e meta-análise foram do tipo observacional. Assim, apesar de contarem com uma larga amostra de doentes, a evidência deste tipo de estudos está sujeita a viéses e confundimentos que poderiam ser ultrapassados com a utilização de estudos controlados e aleatorizados. Por outro lado, em nenhum dos estudos coorte incluídos se verificou uma definição objectiva de dose elevada. Por todos estes motivos, é necessário cuidado na utilização de AINE’s na DRC, aconselhando-se a menores dose e duração possíveis. Na existência de indicação para utilização continuada de AINE’s em doentes com DRC, nomeadamente por osteoartrose grave, recomenda-se a realização de controlo anual da função renal. Fica assim patente a necessidade de estudos adicionais para esclarecer estas questões, nomeadamente, incidindo na quantificação das doses utilizadas e na identificação dos possíveis efeitos de co-morbilidades e co-medicações sobre a função renal nestes doentes.
