Infusão de fezes doadas para tratamento de infecção recorrente por Clostridium difficile

Carlos Martins, FMUP, Instituto CUF

Pergunta clínica: Nos doentes com diarreia por infecção recorrente por Clostridium difficile o tramento com infusão de fezes + vancomicina inicial é mais eficaz do que o tratamento padrão com vancomicina?

Os quadros de diarreia recorrente por Clostridium difficile são de difícil tratamento, com um número elevado de insucessos terapêuticos por resistência aos antibióticos.

Desenho do estudo: Neste “open-label trial”, cujos resultados foram publicados no New England Journal of Medicine, 43 pacientes com infecção por C. difficile recidivante foram aleatorizados e distribuídos por três grupos com três estratégias terapêuticas diferentes:

a) Regime padrão de vancomicina (500mg PO qid, 14 dias);

b) Regime padrão de vancomicina + lavagem intestinal;

c) Vancomicina inicial (500mg PO qid, por 4 dias) + lavagem intestinal + infusão de solução doada de fezes humanas por sonda nasoduodenal.

O endpoint primário era a resolução do quadro de diarreia sem recorrência 10 semanas após o tratamento.

Resultados: O estudo foi interrompido precocemente por causa das altas taxas de recidiva nos grupos controlo. Dos 16 pacientes no grupo da infusão de fezes, 13 (81%) apresentaram resolução da diarreia após a primeira infusão. Os restantes 3 pacientes receberam uma segunda infusão de fezes dum dador diferente, com resolução do quadro em 2 deles. A resolução do quadro ocorreu em 4 de 13 pacientes (31%) no grupo do regime padrão de vancomicina e em 3 de 13 (23%) pacientes do grupo vancomicina + lavagem intestinal.

Os autores concluem que a infusão de fezes doadas foi significativamente mais eficaz para o tratamento da infecção recorrente por Clostridium difficile do que a vancomicina em regime padrão.

Comentário: Este estudo é inovador e pode alterar significativamente a prática clínica. Num editorial do New England Journal of Medicine, é referido que estes resultados representam um claro precedente em que a manipulação terapêutica e planeada da flora intestinal humana pode trazer benefícios clínicos relevantes, falando-se já do transplante fecal: “fecal microbiota transplantation”.

Já temos instituições ou sistemas organizados para recolhas de dádivas de sangue, de órgãos, de medula… No futuro, iremos recolher dádivas de fezes?

Artigo original

Editorial NEJM (free)


A não perder
Menu