Intermitências da vacina: “No dia seguinte ninguém morreu”

 

 

Recordando a frase de abertura do vertiginoso e lúcido romance de José Saramago, As Intermitências da Morte – “No dia seguinte ninguém morreu” – é justamente o que esperamos se aplique à COVID-19 após a vacinação em massa da população. No entanto, a implementação do plano já começa com atropelos e polémicas e quem está no terreno apercebe-se de alguns problemas inerentes ao mesmo, que se afigura tudo menos simplex.

  1. Equidade que depende da codificação clínica
    Desde que vieram a público os critérios da vacinação de fase 1, todos os dias tenho passado, pelo menos, 30 minutos do meu dia de trabalho a transcrever relatórios e codificar diagnósticos de utentes seguidos no serviço privado que, com efeito, têm critério de vacinação. E assim deve ser, pois sou médica de família e advogo por todos os meus doentes, mesmo aqueles que não optam por ser acompanhados no serviço nacional de saúde. Mas não me parece um bom aproveitamento de recursos quando estamos, literalmente, em guerra. Os critérios precisavam de ser mais simples. Mais: tenho dúvidas sobre a equidade de um plano assente desde a primeira fase na qualidade da codificação clínica.
  2. Critérios a qualquer custo?
    Esta é a segunda parte do problema. Todos estão à procura do critério. É compreensível que todos se queiram vacinar, mas não pode ser a qualquer custo. Os princípio ético da justiça tem que ter o primado nesta fase.
  3. Idade, idade, idade
    De modo atabalhoado, afinal, a idade acabou por entrar como critério, mas apenas dos 80 anos em diante. Menos mal. Contudo, o critério idade devia preponderar nas diferentes fases, para simplificar e permitir salvar mais vidas. Quem tenha devotado um minuto do seu tempo ao plano de vacinação COVID-19 britânico percebe que as comorbilidades entram como critério apenas numa fase subsequente; as primeiras fases são para profissionais de saúde, trabalhadores e residentes em lares e, sequencialmente, por grupo etário. Com efeito, a evidência aponta a idade como o factor de risco major para mortalidade por COVID-19.

No meio de tudo isto, um doente meu perguntou se teria critério e expliquei que não, ao que me respondeu “ainda bem, é bom sinal não ser prioritário, nesse caso”. Estas palavras permitiram-me, de alguma forma, recuperar alguma confiança de que o nepotismo e audácia no contorno das regras possam esmorecer e sobrevenha o desejo de equidade.
“Ó Portugal, hoje és nevoeiro…
É a hora!”
(F. Pessoa, Mensagem)

Por Sofia Baptista

PS: convém lembrar que boa parte dos profissionais de saúde permanecem por vacinar e muito poucos do sector privado o foram.

 

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