Isabel Sousa @ Londres

Nome: Isabel Sousa
Idade: 34 anos
Especialidade: Medicina Geral e Familiar
Local: Londres

Porque optaste por ir trabalhar para o Reino Unido? E em que localidade estás a viver e a trabalhar?
Durante toda a minha vida académica e profissional senti um profundo interesse em ir para outros lugares e ter contacto com novas experiências e formas de trabalhar. Sempre foi uma ideia que me ia perseguindo mas que foi perdendo a força à medida que nos vamos adaptando e acostumando à nossa realidade.
Entretanto, por questões pessoais aliadas a um programa de recrutamento muito estruturado com imenso apoio e a uma vontade que sempre esteve “lá”, decidi abraçar esta experiência de me mudar e trabalhar em Londres.
Eu vivo em Camden, no centro de Londres e trabalho em Enfield, numa clínica na zona norte de Londres.

Há quanto tempo estás no Reino Unido? Planeias regressar a Portugal?
A minha mudança ainda é recente, cerca de 1 ano, mas a progressão e crescimento são notórios para mim. Regressar a Portugal sempre fez parte dos meus planos, mas não necessariamente por questões laborais.
Evidentemente que sairmos da nossa bolha faz-nos perceber muitas coisas. Uma delas é que somos tão capazes de nos adaptar a diferentes ambientes e que as nossas maiores limitações estão só na nossa cabeça. Também compreendemos a diferença de valorização de um profissional em diferentes países e de um sistema que premeia o mérito.

Quais os aspectos mais positivos desta experiência?
A experiência em si e tudo o que envolve é o melhor e o mais enriquecedor que levo daqui. Ir para uma nova cidade, uma língua diferente e uma população com etnias, religiões e tradições tão díspares é super interessante. Cada zona de Londres é diferente e a experiência de cada médico é também distinta por isso. Portanto, os nossos desafios são também outros. Por exemplo, na minha zona existe uma grande prevalência de população turca e grega. Ter que agendar consultas com um tradutor, por telefone ou presencial, é algo comum.
Conhecer um outro sistema de saúde fez-me também ter uma visão mais crítica sobre o nosso SNS, valorizar o que temos, mas também perceber as suas lacunas. Resumindo, alargar os meus horizontes!
Eu vim num programa de recrutamento internacional, super estruturado, com apoio e uma bolsa para me ajudar nas mudanças. Foi um processo sempre muito organizado e bem fundamentado, o que devo salientar que se distingue muito da nossa organização portuguesa.
Neste programa estão vários outros médicos como eu, de todas as idades e nacionalidades, e portanto ter um grupo e fazer novas amizades foi também mais fácil. Para além disso, Londres é uma cidade que fervilha! Para quem é um adepto de cultura, teatro, musicais, concertos e exposições como eu, esta cidade é inesgotável!
Concluindo, penso que o aspeto mais positivo é realmente percebermos como nos conseguimos adaptar a novas realidades e a nossa profissão é, digamos uma profissão “universal” e acredito que a nossa formação em Portugal é de excelência.

E negativos?
Qualquer “emigra” sentirá o mesmo suponho eu. A família, os amigos, a comida, o Sol, as praias, o nosso belo país. Não há bela sem senão. Mas na verdade Londres é a um pulo do meu Porto e neste momento só a Covid é um obstáculo a estas visitas. A mudança exige esforço e perseverança também. No Reino Unido é necessário passar por um processo de Indução, onde temos que fazer exames de escolha múltipla e um exame de simulação de consultas com atores. Apesar de descrever isto no “negativo” porque exige esforço extra, para mim foi um processo enriquecedor e aprendi muito nestes meses. Qualquer clínico aqui que deixe de exercer por um período de 2 anos tem também que passar por um processo de indução ou “refreshment” como chamam, o que me surpreendeu pela positiva.

Qual a tua perspectiva do Serviço Nacional de Saúde inglês?
O nosso SNS foi inspirado a partir do SNS inglês, por isso não é de estranhar que existam muitas similaridades e que não seja um sistema “estranho” para nós. No entanto, evoluíram de maneiras muito diferentes. É um sistema altamente especializado, com muitos técnicos e diferentes tipos de clínicas que oferecem serviços muito específicos. Um exemplo são os vários “graus” de enfermeiras que existem com diferentes especialidades e que são muitas vezes as principais cuidadoras ou prestadoras de serviços.
Muitos profissionais dos cuidados secundários estão também mobilizados para serviços comunitários e por isso existem consultas que podem ser feitas na comunidade. Não há uma uniformidade e portanto os serviços disponíveis variam muito consoante a zona. Conhecer o que temos disponível pode às vezes ser um desafio!
O sistema inglês é gratuito para todos os utentes, exceto certos procedimentos que não são considerados no âmbito do NHS (por exemplo, se o utente pretende um relatório para outro fim que não seja cuidados médicos/referenciação). Apesar de não ser um modelo privado, as unidades têm verdadeira autonomia. Suponho que algo que se poderia aproximar seria o modelo C em Portugal. O edifício é dos médicos e estes recebem anualmente uma verba e fazem a gestão da mesma. Portanto, os salários e tipos de contrato podem variar de clínica para clínica.
Os utentes também não estão distribuídos por médico de família. Disseram-me que já foi assim há muitos anos mas que achavam que o atual sistema, de utentes alocados a uma unidade funcionava melhor. O utente escolhe o médico que quer ver.
Sinto alguma falta da continuidade de cuidados, que aqui não me parece tão vincada como em Portugal. E sinto que é mais difícil considerar-me médica de família aqui, pelo que o termo GP (general practitioner) parece mais adequado.
Por outro lado, as consultas parecem-me menos confusas e mais orientadas no Reino Unido. Os utentes estão habituados a focar-se num único problema e costumam ter uma agenda bem definida. Não tentamos falar de tudo, a agenda do utente mais a nossa, ver os rastreios, e se tens os registos em dia, e tem tensão arterial e peso recente? Sentia muitas vezes este stress em Portugal, de ter que ter “controlo” de tudo aquilo sobre um utente.
As unidades normalmente são formadas por secretários clínicos, médicos e enfermeiros, mas podem ter vários outros profissionais integrados. Farmacêuticos clínicos, paramédicos, técnicos especializados em problemas agudos, são alguns dos exemplos. O farmacêutico clínico faz um trabalho excelente em termos de revisão e gestão de medicação. Grande parte das consultas que não exigem uma mudança no plano terapêutico são também feitas por enfermeiros; por exemplo, consultas de hipertensão, diabetes ou asma.
Aqui a responsabilidade pela sua saúde está do lado do utente. As agendas estão abertas praticamente só com uma semana de avanço e os utentes conseguem consulta no próprio dia ou dia seguinte. Mas se precisarem de ser reavaliados ou repetirem algum procedimento em x tempo, terão que ser eles a ligar e marcar consulta. É uma medicina muito menos paternalista.
Os tempos de espera para consultas na comunidade e no Hospital às vezes são também extremamente longos e a pandemia ajudou a agravar este problema. Por outro lado, qualquer caso suspeito de cancro entra numa via chamada “2 week wait”, em que o utente é visto normalmente numa semana no máximo e em grande parte das especialidades até conseguimos marcar a consulta no sistema do Hospital.


Clínica em Enfield, a norte de Londres.

Da realidade que estás a vivenciar aí, o que gostarias de ver replicado em Portugal?
Flexibilidade
O que mais aprecio neste país é a flexibilidade a nível laboral. Não há uma obrigação de se trabalhar 35 ou 40 horas naquele tipo de serviço. A maior parte dos médicos aqui desenvolve uma carreira que chama “portfolio”. Desenvolvem interesses diferentes, que tanto pode ser investigação, ensino, medicina desportiva, dermatologia, saúde mental, cuidados paliativos, etc e trabalham nessas áreas. Trabalham 3 dias na clínica e depois trabalham em outras coisas. O médico de família aqui considera isso essencial e fundamental pois acreditam que é muito desgastante e pouco frutuoso uma dedicação exclusiva a consulta 5 dias por semana. Acho maravilhoso o facto de haver essa possibilidade e flexibilidade.

Competências em Comunicação
A maior parte dos médicos e outros profissionais de saúde que observo são brilhantes nas competências em comunicação. Em Portugal sempre senti que cada vez se dá mais importância a este assunto, mas aqui sinto que é uma competência há muito estabelecida, não fosse este país o berço da entrevista motivacional. Em todas as consultas há um verdadeiro empowerment do utente e uma negociação sobre o plano a definir. Acho realmente delicioso observar este fenómeno e isso ajudou-me também a progredir na minha comunicação.

Facilidade na Comunicação com outros Médicos
Na minha área existe um programa/app chamada “Consultant Connect” e que nos põe em contacto em 20 segundos com um médico de qualquer especialidade que precisarmos para debatermos dúvidas sobre um utente. Este sistema é muito eficaz e também possibilita enviar fotos (por exemplo para dermatologia) ou exames (ECG, Holter, etc) e tenho tido respostas em 2 ou 3 horas. Em Portugal sentia-me por vezes isolada e com dificuldade em aceder a médicos hospitalares, portanto às vezes enviamos utentes para a urgência e cuja ida podia provavelmente ter sido evitada.

Sistema Informático
Não há um sistema informático perfeito e nisso Portugal está bastante desenvolvido. Aqui não conseguimos aceder a registos nos cuidados hospitalares, por exemplo. Mas por outro lado, as análises ou exames pedidos são registadas automaticamente no sistema e portanto não temos que andar a copiar resultados. Existe também uma aplicação que permite enviar mensagens ao utente, documentos ou fazer chamadas e videoconsulta. É extremamente útil e tem sido uma ferramenta importantíssima durante os tempos de Covid.

Avaliação Contínua
Todos os profissionais são sujeitos a uma avaliação contínua e têm que fornecer evidências de desenvolvimento profissional contínuo. Isto impede que alguns clínicos fiquem “parados no tempo” ou com conhecimentos desactualizados.

Procedimentos/Qualidade/Auditorias
Trabalhei alguns anos em USF modelo B, A e UCSP e escrevia os documentos/protocolos e muito mais e era assim, porque todos o fazemos. Quando vim para aqui comecei a ter uma visão mais crítica sobre isso. Estamos sobrecarregados (desnecessariamente) em burocracia e papelada. Temos informação tão valiosa, como no BI das USFs, mas continuamos a perder horas, semanas e meses a fazer procedimentos e papelada e a repetir coisas cujos dados temos já disponíveis. Espero sinceramente que as coisas mudem, porque sinto que todos estes processos nos tiram energia e motivação para o que realmente é crucial.

Que ideias do nosso SNS levarias para o NHS?

Sistema Informático
A nossa plataforma de saúde e possibilidade de visualizar os cuidados que o utente tem no Hospital e nos cuidados primários é de facto uma arma valiosa.

Contacto social entre a equipa
Acho que somos experts nisto! Tenho saudades dos almoços e convívios com a minha equipa em Portugal. Aqui as refeições são bastante desvalorizadas e resumem-se a uma sandocha comida meia às pressas. Tenho-me esforçado para integrar esse legado na minha clínica!

Prescrição eletrónica
Também existe aqui, mas temos que enviar para a farmácia. Acho bem mais interessante em Portugal a possibilidade de enviarmos diretamente para o utente. O sistema de prescrição português é também mais user-friendly e mais informativo. Aqui não consigo saber, por exemplo, se a receita foi levantada ou não.

Seguimento de grávidas e crianças
O seguimento destes 2 grupos deixa na minha opinião bastante a desejar. As crianças não tem um seguimento regular e têm uma única consulta mandatória entre as 6 e as 8 semanas de vida. As grávidas são seguidas por “midwifes” e os GPs acabam por ter também pouca formação neste grupo.

Trabalho entre enfermeiros e médicos
Aqui não há um verdadeiro trabalho de equipa entre estes dois grupos. O sistema não está também tão focado na prevenção e educação para a saúde e sinto que todos os profissionais deveriam estar mais envolvidos nisso.

Do que sentes mais falta de Portugal?
Família e amigos, sem dúvida. E peixinho bom, fresco do mercado! E Sol….

 

 

1 Comentário. Deixe novo

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André Correia
Outubro 19, 2020 19:22

Interessante perspetiva.
Gostei particularmente da abordagem da flexibilidade (ou direi antes versatilidade) laboral e da comunicação. Valoriza o profissional e reflecte-se na motivação e dedicação empenhados no utente… nem sempre temos espaço cá para isso no SNS.
A app do consultant connect também me parece interessante. Não sei se já existe, se é algo ao alcance de aplicações como o TonicApp (passo a publicidade) ou mesmo o DrShare.
Sistema informático e exames – só o facto de podermos ter quiçá algum administrativo especialmente alocado à digitalização e transcrição inteligente e automatizada de MCDTs antes de chegarem ao médico já era muito bom… e parece-me mais uma questão de disponibilidade de tempo e de pessoal do que de tecnologia, mais ou menos acessível num bom e rápido smartphone.
Procedimentos – assino por baixo. Bastaria, por exemplo, 1 auditoria a 1 programa por ano e focar nisso.

Felicidades e obrigado pela partilha. 🙂

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