
Que os chefes dos chefes dominam omundo.
Álvaro de Campos
Entre os séculos XIII e XIX o império otomano criou um corpo de militares e de funcionários recrutados entre rapazes cristãos do império – os janízaros. Desenraizados das famílias e comunidades eram islamizados e submetidos a cuidada formação militar e cultural , constituíam o pilar do poder dos sultões turcos a quem devotavam uma fidelidade absoluta. Porém, com passar dos séculos, estes escravos soldados corporativizaram-se e tornaram-se os verdadeiros mandantes e predadores do império.
De tempos a tempos vem à baila a questão da escassez de médicos de família, para a qual a tutela tem proposto soluções mais ou menos imaginativas e de variável sensatez. Paradoxalmente, o mesmo ministério que se preocupa com a falta de médicos de família, despreza o trabalho dos poucos que estão em atividade. É como se em tempo de seca se ignorasse o desperdício resultante de canalizações rotas.
As disfunções informáticas não são de agora, mas este ministério não demonstrou afastar-se da canhestra política por outros iniciada. Nós, os utilizadores, sentimos que somos e somos a maioria silenciada neste processo. Os disparates sucedem-se e a caravana segue.
Sem dúvida que há muitas ferramentas úteis entre a panóplia que temos à mão, não fossem os bugs, que têm demorado a ser corrigidos . Mas também temos aplicações aleijadinhas de todo. O Alert é paradigmático. De génese obscura, e sem que tenham sido esclarecidas as razões que levaram à escolha deste programa tão disforme, é pouco funcional e prega partidas a escorregar para o lúgubre. Frequente, os pedidos de consulta hospitalar, feitos através do SClínico, perdem-se no éter e não chegam aos hospitais porque o Alert dá-lhes sumiço, embora fiquem assinalados no SClínico como enviados. Em resumo, ficam o MF e utente convencidos que o caso foi referenciado. Porém, tal referência nunca chegou ao hospital. Sinalizada por diversas vezes esta falha, indubitavelmente crítica, obtive do service desk uma resposta inaceitável e silêncio a mais das vezes. Aliás, perante a pusilanimidade do feedback (quando há direito a feedback!) que tenho recebido do SPMS, levaram-me a optar por não perder tempo a reportar a saraivada de bugs com que tropeço. Apostaria que não sou o único a ter compreendido que não é rentável desperdiçar tempo a assinalar falhas, devidamente documentadas, a um helpdesk, que, baseado na minha experiência, é pouco mais que inútil.
Mas, mesmo com ótimo software, o envelhecido parque informático e a estreiteza de banda vigente estrangulam-lhes a produtividade. Bizarra é a ânsia de agigantar o efetivo de programas e aplicações, conservando os pés de barro de todo o edifício. As queixas são ubíquas e as disfunções consensualmente identificadas. A inoperância e a arrogância do SPMS são manifestas e, aparentemente, inamovíveis. Porquê? Vislumbro duas explicações possíveis.
Primeira hipótese: o ministério alinha na moda em voga: a omnipotência da política. Será o obstáculo técnico, mas a solução é política.! Os objetivos políticos (e pode nem estar em causa a sua bondade) são perseguidos ao arrepio da opinião dos técnicos e da prática dos utilizadores, quer dizer da realidade. Assim sendo, sob a batuta cega dos políticos, o SPMS seria coagido a soluções abstrusas e temos a informatização a avançar como paquiderme em loja de porcelana.
Em alternativa temos a hipótese da “janizarização” dos SPMS. Aqui os políticos, abdicando do seu legitimo papel de condutores, permitiriam a usurpação do poder pelos técnicos. Estes, substituíam a sua missão pela a sua própria agenda. Ao arrepio das necessidades dos utilizadores e dos utentes, a máquina informática do ministério giraria em dos colaboradores do SPMS e com prejuízo da nação.
Um dia avariou-se o sensor biométrico do nosso centro de saúde. Dois dias depois, um técnico da ARSLVT fez mais de duzentos Km para compor a avaria. Contudo, desde há seis meses que se verificam sistemáticos apagões telefónicos no nosso centro de saúde e o nosso servidor tem falhas quase diárias, sem que possamos testemunhar qualquer iniciativa no sentido de corrigir estes escândalos.
Por Acácio Gouveia, aamgouveia55@gmail.com
(artigo escrito em Setembro 2015 e publicado também no Jornal Médico)
