Medicina de urgência: uma nova especialidade?

 

 

Vivemos no passado. Continuamos presos à época em que o serviço de urgência era o local onde colegas do hospital passavam algumas horas da sua semana de trabalho.
Portugal é um dos países da Europa onde mais se recorre ao serviço de urgência. Muitas vezes por doença aguda, outras por descompensação de doença crónica, mas, infelizmente, também muito por “urgência” na agenda pessoal e não por um motivo clinicamente válido.
Estes doentes precisam de uma abordagem diferenciada e eficiente. Só assim os doentes verdadeiramente urgentes poderão ser tratados o mais rápido e melhor possível, de acordo com a gravidade da situação, distinguindo-se os doentes não urgentes e que podem estar a prejudicar a prestação atempada de cuidados médicos a quem realmente precisa deles.
Por outro lado, mesmo que o doente não apresente uma situação clínica ou patologia que precise de cuidados médicos imediatos, deverá ser orientado em relação ao seu problema, seja por referenciação a outro clínico, consulta ou unidade de saúde, ou simplesmente apostando na educação para a saúde.
A Medicina Geral e Familiar, na sua vasta área de abrangência clínica, também está intimamente ligada à prática médica em contexto urgente. A consulta aberta, intersubstituição e as jornadas nos SASU/AC são parte incontornável da especialidade. Aqui apresentam-se doentes muito diversos, desde alguém com patologia pouco urgente ou menos grave, até doentes críticos, pelo que tanto a experiência de formação como o trabalho do especialista deveriam manter uma ligação próxima ao hospital de referência, prevendo-se o contacto permanente com a realidade hospitalar como forma de consolidar experiência e melhorar o desempenho mesmo na própria unidade .
Por outro lado, no Hospital estão colegas que, na sua maioria, nunca avaliaram doentes fora do contexto hospitalar após o internato geral. À prática clínica associa-se sempre um contexto, podendo a formação ser muito mais rica quando diversificamos. Seria importante para a formação do futuro especialista, nomeadamente em áreas médicas, como a Medicina Interna, que os estágios incluíssem os cuidados de saúde primários, numa fase mais avançada e diferenciada do que apenas o internato geral.
Penso que o doente deve ser abordado da forma mais eficaz possível e que a prestação de cuidados médicos deve ser vista como um continuum. A “distância” entre cuidados de saúde primários e hospitalares parece ter encurtado em alguns modelos organizacionais, mas a prática e formação médicas ainda não seguiram esse rumo.

A Medicina de Urgência será facilmente explicada por uma análise custo-benefício, podendo trazer evidentes ganhos em saúde e economizar os magros recursos de que dispomos, ao aplicá-los criteriosamente.
Como sabemos, a existência de um “Serviço” reside na apresentação de um corpo clínico, não apenas um grupo de clínicos que lá vai trabalhar durante umas horas por semana.
Este ano, profundamente marcado pela pandemia do novo coronavírus, explorou ao máximo as fragilidades dos serviços de saúde. O peso assentou, como quase sempre em épocas mais difíceis, nos serviços de urgência. A resposta parece ter sido assimétrica, notando-se vantagem de quem já há muito aposta numa equipa dedicada à prática da Medicina de Urgência.
A evidência é inegável: há uma procura crescente pela Medicina de Urgência e oferta de clínicos com interesse e aptidão para a Especialidade.

Porque continuamos, em Portugal, a atrasar a criação da especialidade de Medicina de Urgência?

Por Rogério Moreira Marques
Especialista em Medicina Geral e Familiar, Assistente do Serviço de Urgência Polivalente do Centro Hospitalar e Universitário de S. João

 

 

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