Por Paula Mendes, USF Maxisaúde
Enquadramento: Os E.U.A. encontram-se num momento crítico no planeamento do seu sistema de saúde, devido à escassez de médicos nos CSP (é o país industrializado com menos médicos per capita: 30 por cada 100000 habitantes, comparativamente com 80 no Reino Unido e 159 na França). Além disso, está a ser implementada a “Affordable Care Act”, permitindo a milhões de Americanos sem seguro de saúde, o acesso aos Cuidados de Saúde. Para contornar esse problema, os políticos têm vindo a considerar a expansão do papel dos enfermeiros nos CSP.
Pergunta clínica: Qual a opinião dos médicos e enfermeiros relativamente às funções de cada um na prestação de cuidados de saúde?
Desenho do estudo: Estudo observacional e transversal, baseado num questionário distribuído por correio nacional e eletrónico, a uma amostra aleatória de 972 profissionais de saúde (505 médicos e 467 enfermeiros). O estudo decorreu entre Novembro de 2011 a Abril de 2012 e incluía médicos e enfermeiros de diferentes especialidades (MGF, Medicina Interna, Pediatria e Geriatria).
Resultados: A taxa de resposta foi de 61,2%. Os médicos relataram que trabalham mais horas, vêm mais doentes, têm um melhor salário e prestam cuidados de melhor qualidade comparativamente aos enfermeiros. A maioria dos enfermeiros, em oposição aos médicos, considerava que deveriam praticar cuidados de saúde em casa (E 82,2% vs M 17,2%) e serem pagos igualmente pelos mesmos serviços (E 64,3% vs M 3,8%). Enfermeiros e médicos concordaram com o facto de que os enfermeiros delegam certos cuidados ao médico, nomeadamente: casos complexos, diagnósticos específicos, procedimentos manuais e cuidados pós-operatórios. Ambos afirmaram que o aumento do número de enfermeiros melhoraria o acesso aos serviços de saúde, no entanto 1 em cada 3 médicos acha que isso iria ter um efeito negativo na segurança e eficácia.
Conclusão: Médicos e enfermeiros não partilham uma visão em comum relativamente às recomendações que visam a expansão das funções dos enfermeiros nos CSP.
Comentário: Existem algumas perguntas sem resposta. Por exemplo, se a educação, cultura e formação dos médicos e enfermeiros são díspares, será que as competências clínicas poderão ser semelhantes? De facto, já em 2000, a OMS questionava a possibilidade de redistribuir responsabilidades entre profissionais do mesmo grupo ou diferentes (skill-mix), como solução potencial de problemas na organização das instituições de saúde.
Esta controvérsia também tem sido alvo de debate em Portugal. Em Março de 2013, foi publicada uma notícia nos jornais que causou polémica “Enfermeiros vão substituir MF”, enquadrado no processo de alteração do estatuto do enfermeiro de família. Em resposta, o Bastonário da Ordem dos Médicos defendeu que a substituição dos MF pelos enfermeiros não deve ser equacionada apenas pelo argumento de que fica mais barato ao Sistema Nacional de Saúde, até porque já deu maus resultados, como aconteceu com os partos em casa. Alguns consideram que a resposta está na voz dos utentes. Mas será que devíamos perguntar às grávidas se preferem ser seguidos por um médico ou por enfermeiro? Ou ainda aos pais se preferem que a sua criança seja seguida por um médico ou por enfermeiro? Parece-me importante no meio desta polémica que o doente acima de tudo não saia prejudicado!
