Portugal: resultados de uma consulta de cessação tabágica

   Por Ângela Alves, USF Santo António

 

Enquadramento: O tabagismo constitui uma importante causa de morbilidade e é a maior causa de morte evitável no mundo. Em Portugal, afeta 20% da população, predominantemente homens e indivíduos com elevado estrato socioeconómico. No entanto, a prevalência nas mulheres tem aumentado. Constitui um fator de risco para patologias cardiovasculares, respiratórias e neoplásicas e associa-se a redução da qualidade de vida e elevados custos de saúde, sendo essencial fomentar a sua evicção.

Objetivo: Caraterização e análise dos resultados obtidos após implementação de uma consulta de Cessação Tabágica multidisciplinar, composta por um médico internista e um médico de família, num centro de saúde da Madeira.

Desenho do estudo: Estudo descritivo e retrospetivo das consultas decorridas entre Fevereiro de 2010 e Fevereiro de 2012, que incluiu fumadores motivados para cessação, com consumo diário igual ou superior a 20 cigarros e moderado/elevado grau de dependência (Teste de Fagerström ≥ 3). Caracterizou-se a população frequentadora da consulta quanto ao género, idade, antecedentes patológicos, carga tabágica (em UMA), risco cardiovascular (utilizando as tabelas SCORE), número de consultas, grau de dependência (Teste de Fagerström) e motivação (Escala visual analógica de 0-10), uso de farmacoterapia e taxas de cessação e abandono da consulta. A taxa de cessação foi calculada considerando doentes que não fumavam há pelo menos 6 meses.

Resultados: Foram observados 56 doentes, com média de idades de 38 anos, predominantemente do sexo masculino e cuja maioria iniciou consumos antes dos 18 anos. As comorbilidades mais prevalentes foram a dislipidemia, hipertensão arterial e o alcoolismo.

A carga tabágica média observada foi de 29 UMA e 64% dos doentes apresentava elevado grau de dependência. No entanto, a maioria apresentava grande motivação para a cessação. Todos os doentes foram submetidos a terapia comportamental e 61% foram submetidos a farmacoterapia concomitante. A taxa de cessação tabágica foi de 25% e verificou-se maior sucesso nos doentes que apresentavam maior carga tabágica e grau de dependência, tendo-se reduzido o risco cardiovascular em 2%.A taxa de abandono da consulta foi de 28,5%, dos quais 25% tiveram alta por desmotivação e incumprimento.  

Conclusão: O tabagismo inicia-se frequentemente na adolescência, sendo essencial intervir nesta fase, no sentido de reduzir o risco de diversas patologias, incluindo as cardiovasculares. Sabendo-se que a desmotivação está intrinsecamente relacionada com o insucesso, é essencial promover o empowerment dos doentes e a abordagem multidisciplinar mostra-se fulcral para um acompanhamento e tratamento adequados. Apenas deste modo se alcançará um sucesso duradouro.

Comentário: A validade deste estudo fica comprometida pela pequena amostra de doentes avaliada e pela subjetividade dos métodos de avaliação inicial da predisposição para a cessação, avaliada pelo médico de família e portanto com os vieses inerentes à subjetividade dos diferentes médicos. Penso que este conjunto de fatores pode explicar a menor taxa de cessação tabágica obtida, comparativamente aos resultados de outro estudo nacional (42,4%). No entanto, considero pertinente a criação de uma consulta multidisciplinar, que na minha opinião deveria também incluir um psicólogo e sessões de grupo, de modo a potenciar a motivação, com base na partilha de experiências reais.

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