Na suspeita de cervite ou doença inflamatória pélvica o exame ginecológico é dispensável

 

 

Pergunta clínica: Será que a realização do exame ginecológico influencia a precisão diagnóstica e a conduta terapêutica em adolescentes com suspeita de cervicite ou doença inflamatória pélvica?

Enquadramento: Tipicamente, perante queixas de corrimento vaginal ou dor pélvica, é realizado um exame ginecológico.

Desenho do estudo: Estudo observacional prospetivo, que incluiu jovens com idades entre 14 e 20 anos, observadas em contexto de urgência pediátrica em meio urbano, com queixas de corrimento vaginal ou dor hipogástrica. Foi realizada a pesquisa de infeções sexualmente transmissíveis – Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis e Trichomonas vaginalis – em amostra de urina, sendo este considerado o padrão diagnóstico. Foi realizada uma história clínica padrão para avaliação da possibilidade de cervicite ou doença inflamatória pélvica de acordo com os critérios do Centers for Disease Control and Prevention, tendo sido feito o registo da probabilidade de cervicite ou doença inflamatória pélvica numa escala analógica visual de 100 mm. O mesmo médico realizou o exame ginecológico e registou também a probabilidade destes diagnósticos numa escala analógica visual de 100 mm. Com os resultados laboratoriais de pesquisa de infeções sexualmente transmissíveis na urina, foram calculadas e comparadas as características do teste apenas com recurso à história clínica versus com recurso à história clínica e ao exame ginecológico.

Resultados: Das 288 jovens incluídas no estudo, 79 (27,4%) tiveram diagnóstico de infeção sexualmente transmissível. A sensibilidade diagnóstica da história clínica per se para diagnóstico de cervicite ou doença inflamatória pélvica foi de 54,4% e a especificidade de 59,8%; após o exame ginecológico, a sensibilidade diminuiu ligeiramente para 48,1% e a especificidade permaneceu praticamente inalterada (60,7%). As sensibilidades e especificidades não se alteraram significativamente nos médicos com mais experiência. A adição do exame ginecológico à história clínica, sem teste laboratorial de urina, alterou a abordagem em 71 casos (35 dos quais mulheres com teste de urina positivo para infecção, as restantes 36 com teste negativo).

Comentário: Este estudo é extremamente interessante e pode alterar a prática clínica. A realização do exame ginecológico em jovens com suspeita de cervicite ou doença inflamatória pélvica não trouxe benefício diagnóstico (não aumentou a sensibilidade ou especificidade) relativamente à história clínica apenas para prever quais as jovens com teste laboratorial positivo. Estes resultados reforçam a importância da anamnese e do senso clínico.

Artigo original: Ann Emerg Med

Por Sofia do Vale Pereira, USF Trevim Sol

 

 

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