O risco de recaída da depressão após suspensão do tratamento é considerável

 

Pergunta clínica: Em utentes medicados com antidepressivo, com boa adesão terapêutica e clinicamente estabilizados, qual o risco de recaída após descontinuação da medicação antidepressiva?

População: adultos nos cuidados de saúde primários com pelo menos dois episódios de depressão ou que tivessem tomado antidepressivos nos últimos dois anos e com remissão dos sintomas depressivos
Intervenção: descontinuação da terapêutica antidepressiva
Comparação: manutenção da terapêutica antidepressiva
Outcome: recaída de sintomas depressivos

Desenho do estudo: Ensaio clínico aleatorizado, com dupla ocultação e controlado por placebo, multicêntrico. Foram incluídos pacientes dos cuidados de saúde primários que apresentassem antecedentes de, pelo menos, dois episódios depressivos ou que tomassem antidepressivos há pelo menos dois anos e o mesmo antidepressivo há 9 ou mais meses, se encontrassem clinicamente estabilizados e que considerassem suspender a terapêutica antidepressiva. Os participantes foram aleatorizados e distribuídos por dois grupos: (1) grupo que manteve a medicação antidepressiva (citalopram, fluoxetina, sertralina ou mirtazapina); (2) grupo que descontinuou a medicação antidepressiva ao longo de dois meses, substituindo por placebo. O seguimento foi de 52 semanas (aproximadamente 1 ano) e o marcador primário foi a recaída  da depressão, definida como sentimentos de tristeza, depressão ou anedonia (acompanhada de, pelo menos, um sintoma depressivo) com uma duração mínima de 2 semanas.

Resultados: Foram incluídos 478 utentes (238 no grupo manutenção e 240 no grupo de descontinuação), com média de idades de 54 anos, sendo 73% mulheres; aproximadamemnte metade estavam medicados com citalopram e cerca de 75% tomava antidepressivos há mais de 3 anos. Verificou-se recaída da depressão em 92 dos 238 utentes que mantiveram a medicação antidepressiva (39%) e em 135 dos 240 utentes que suspenderam a sua medicação (56%) durante o seguimento (hazard ratio=2.06; Number Needed to Harm=6). O grupo que descontinuou a medicação apresentou, ainda, uma maior tendência para apresentar sintomas depressivos, ansiedade, sintomas físicos associados à descontinuação da terapêutica e pior qualidade de vida relacionada com os parâmetros de saúde mental.

Comentário: Mais de metade dos utentes clinicamente estabilizados sob medicação antidepressiva apresentou um relapso da depressão após suspensão da terapêutica. É igualmente interessante notar que 39% dos doentes que suspenderam a sua medicação sentiram necessidade de retomar o antidepressivo prescrito pelo seu médico no final do estudo. Salvaguarda-se a possibilidade de existirem alguns viéses neste estudo, nomeadamente o viés por indicação (apenas foram avaliados os utentes que se sentiam clinicamente bem e preparados para suspender a medicação) e o facto de apenas terem sido avaliados utentes medicados com alguns antidepressivos (citalopram, sertralina, fluoxetina e mirtazapina). Ainda assim, trata-se de um artigo muito pertinente para a prática clínica, dado apresentar um tempo de seguimento superior à maioria dos ensaios clínicos (que raramente ultrapassam os 8 meses de duração). Os resultados sugerem poder existir benefício em manter a terapêutica antidepressiva por um período mais longo do que o habitualmente preconizado após remissão sintomática, de forma a prevenir a recorrência da depressão.

Artigo original: NEJM

Por Maria Beatriz Morgado, USF Cova da Piedade

 

 

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