Oseltamivir e a informação “escondida”

Por Sofia Pinto, USF São João do Porto


 

Pergunta clínica: Vale a pena prescrever oseltamivir em adultos com gripe?

Enquadramento: O oseltamivir é utilizado para o tratamento e profilaxia da gripe. De acordo com estudos publicados, este fármaco exerce um benefício modesto a nível da redução da duração dos sintomas, se administrado nas primeiras 36 horas após início da sintomatologia. Existe controvérsia quanto à eficácia deste fármaco na prevenção de complicações na infecção por influenza.

Desenho do estudo: Revisão sistemática de estudos aleatorizados, duplamente cegos com grupo controlo, que comparam a eficácia do oseltamivir em relação ao placebo, em adultos com suspeita ou confirmação de infecção pelo vírus influenza, tendo em conta a duração dos sintomas, a probabilidade de ocorrência de complicações e hospitalizações. Foram incluídos artigos não publicados, por existirem em grande número e apresentarem bons desenhos, semelhantes aos que foram publicados.

Resultados: 11 estudos (3 publicados e 8 não publicados) com 4769 doentes cumpriam os critérios de inclusão. Foram comparados os resultados entre os doentes com diagnóstico clínico e laboratorial de infecção pelo vírus influenza, considerando-se o primeiro grupo aquele que mais se assemelha à prática clínica. Existe alguma variabilidade nos resultados, mais evidente entre os publicados e os não publicados. Em alguns verificou-se uma redução na duração da sintomatologia (inferior a cerca de 24 horas), nos doentes tratados com oseltamivir. Não se observou diferença significativa na probabilidade de hospitalização. No grupo com confirmação do diagnóstico de infecção pelo vírus influenza, tratado com oseltamivir, houve uma redução diminuta do risco de pneumonia. Não se verificou redução das complicações em grupos vulneráveis (idosos ou com doença crónica).

Conclusão: O oseltamivir reduz a duração dos sintomas. Não existe evidência que este fármaco reduza a probabilidade de hospitalização ou complicações requerendo antibiótico, à excepção de uma pequena redução do risco de pneumonia nos doentes com diagnóstico laboratorial de infecção pelo vírus influenza.

Comentário: Na decisão da prescrição de um medicamento, entram várias componentes em jogo: a eficácia, as reacções adversas, o preço e, neste caso em particular, as resistências. O oseltamivir custa, de acordo com o Prontuário Terapêutico, 24.58 euros (PVP). São descritos uma série de efeitos adversos nomeadamente alterações comportamentais, Síndrome de Stevens Johnson e hepatite fulminante. Valerá a pena prescrever este fármaco tendo em conta que o maior benefício é uma pequena redução na duração dos sintomas, se administrada nas primeiras 36 horas após o início do quadro gripal? Ao longo da nossa formação e actividade profissional somos incitados a ler artigos e a exercer medicina baseada na evidência. No entanto, verificamos que nem todos os estudos estão disponíveis para leitura e assim, a informação que nos é fornecida é parcial e pode alterar em muito as conclusões que se podem formular e nas quais fundamentamos as nossas decisões médicas. Podemos confiar na informação disponibilizada? Temos outra alternativa? Este tema é amplamente abordado por Ben Goldacre. Vale a pena ver a sua conferência TED (link aqui) e ler o seu último livro intitulado “Farmacêuticas da treta” editado em Portugal pela Bizâncio.

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