
Pergunta clínica: os utentes com risco cardiovascular intermédio e sem doença cardiovascular conhecida beneficiam de medicação com fármacos anti-hipertensores?
Enquadramento: Existem dúvidas sobre o papel dos fármacos anti-hipertensores no que diz respeito à redução de mortalidade relacionada com eventos cardiovasculares em utentes com risco cardiovascular intermédio e valores de pressão arterial (PA) sistólica inferior a 160 mmHg.
Desenho do estudo: Estudo aleatorizado, controlado, duplamente cego. Objectivo; avaliar o efeito da diminuição dos valores de pressão arterial em indivíduos com risco cardiovascular intermédio sem doença cardiovascular conhecida. Critérios de inclusão: homens com idade ≥ 55 anos e mulheres com idade ≥ 65 anos com pelo menos um fator de risco cardiovascular; mulheres com pelo menos 60 anos e dois fatores de risco. Forma identificados 12 705 participantes que foram aleatoriamente distribuídos pelos dois grupos do estudo: grupo controlo (placebo) e grupo medicado com a associação candesartan/hidroclorotiazida (dosagem 16mg/12.5 mg). A idade média dos participantes foi de 66 anos e 46% eram do sexo feminino. Cerca de metade eram asiáticos. 38% tinham antecedentes de HTA e 22% encontravam-se medicados com anti-hipertensores. A PA média inicial era 138/82 mmHg. Os participantes foram acompanhados durante 5,6 anos (mediana). Foram definidos dois outcomes primários compostos: (1) morte por evento cardiovascular, EAM não fatal e AVC não-fatal; (2) outcome (1) mais paragem cardíaca revertida, insuficiência cardíaca e necessidade de revascularização
Resultados: O grupo medicado com candesartan 16 mg/hidroclorotiazida 12,5 mg teve uma redução de PA reduzida em 6/3mmHg mais do que o grupo placebo (10/5.7 vs 4/2.7 mm Hg). Quanto aos outcomes não foi encontrada uma diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos (4.1% vs 4.4% e 4.9% vs 5.2%, respetivamente). Da mesma forma, não houve diferenças nas taxas de mortalidade global (5.4% vs 5.5%) e, em particular, nas taxas de mortalidade por causas cardiovasculares (2.4% vs 2.7%). Na análise estratificada pelos valores de pressão a inicial, os participantes com PA > 143.5mmHg , foi demonstrada uma redução estatisticamente significativa em ambos os outcomes primários. No caso do outcome (1) foi de 4.8% vs 6.5% (NNT = 59 em 5.6 anos de tratamento para prevenir 1 morte por evento cardiovascular, EAM não-fatal ou AVC não-fatal) mas sem benefícios em termos de mortalidade.
Conclusão: A terapêutica com candesartan 16 mg/ hidroclorotiazida 12.5 mg não esteve associada a uma diminuição da taxa de eventos cardiovasculares major, quando comparada com o placebo, nos doentes com risco cardiovascular intermédio e sem doença cardiovascular prévia.
Comentário: Este estudo corrobora a recomendação atual de medicar com anti-hipertensores os doentes de risco baixo e intermédio apenas se apresentarem uma pressão arterial sistólica superior a 140 mmHg. Estes dados contrariam a hipótese “the lower the better” no que diz respeito aos valores de pressão arterial.
Por Sandra Amaral, USF S. Julião
