Pergunta clínica: o teste de DNA do HPV é uma abordagem efetiva para rastreio do cancro do colo do útero?
Desenho do estudo: estudo de coorte prospetivo com 12527 mulheres, dos 32 aos 38 anos de idade, convidadas para rastreio (1997 a 2000). Feita aleatorização (1:1) para teste duplo com teste HPV e citologia (intervenção, n= 6257), ou citologia apenas, com amostras congeladas para futuro teste de HPV (controlo, n= 6270).
Resultados: Das 12091 mulheres incluídas, 387 desenvolveram neoplasia intraepitelial do colo do útero de grau 2 ou mais grave (CIN2+; 3,2%) e 230 desenvolveram de grau 3 ou mais grave (CIN3+; 1,9%) durante o follow-up médio de 11 anos.
A detecção aumentada de neoplasia intraepitelial do colo do útero de grau 2 ou mais grave (CIN 2+) no braço interventivo diminuiu ao longo do tempo. Após 6 anos, a incidência cumulativa de CIN 3+ foi similar nos dois braços, e após 11 anos, a incidência cumulativa de CIN 2+ tornou-se semelhante nos dois braços.
A sensibilidade longitudinal da citologia para CIN 2+ no braço controlo aos 3 anos foi semelhante à sensibilidade do teste HPV no braço interventivo aos 5 anos: 85,94% (95% IC: 76,85% a 91,84%) vs. 86,40% (79,21% a 91,37%).
A sensibilidade do rastreio HPV para CIN 3+ após 5 anos foi de 89,34% (80,10% a 94,58%) e para citologia após 3 anos foi de 92,02% (80,59% a 96,97%).
A combinação de citologia e teste de HPV aumentou ligeiramente a sensibilidade a 5 anos (92 a 95%). Mulheres com um resultado positivo ao teste de HPV não tiveram uma probabilidade maior de diagnóstico de CIN2+ ou CIN3+, em comparação com a citologia, tornando o risco de sobrediagnóstico baixo.
Conclusão: Um simples teste de HPV fornece o mesmo grau de proteção por 5 anos que a citologia cervical por 3 anos. Um resultado negativo em teste de HPV está associado a baixo risco para CIN2+ ou CIN3+. E este risco é prolongado no tempo. O seguimento a longo prazo de mulheres com infecção HPV persistente não resultou num aumento da incidência cumulativa de CIN de alto grau.
Comentário: Este estudo permite concluir que as lesões adicionais detectadas por rastreio com teste de HPV não representam um sobrediagnóstico, mas uma detecção precoce. No futuro, poderá ser recomendado a realização simples do teste HPV, ficando a citologia reservada para mulheres com resultado positivo ao teste inicial. Poderá igualmente ser estendido o intervalo de rastreio para 5 anos. Perante vários métodos de rastreio efetivos disponíveis, a escolha de testes e intervalos óptimos será o resultado de um equilíbrio entre sensibilidade, especificidade, e custos. E caberá a cada país decidir.
Por Nuno Pina, UCSP Tábua
