“Ser APMGF” vai ser uma nova MGF?

 

 

A Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), sucessora da Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral (APMCG), a maior associação médica de inscrição voluntária em Portugal, foi a votos, pela primeira vez com 2 listas a nível nacional (correspondentes a projetos), sendo eleito o grupo sob a sigla “Ser APMGF”, derrotando a “Nova APMGF”. Parabéns aos vencedores, honra aos vencidos.

Estando aposentado (e portanto na ausência de conflito de interesses), parece-me oportuno, face ao momento presente na MGF em tempo de pandemia, fazer uma análise sobre a APMCG/APMGF, com base na minha experiência de associado pós-fundação (entretanto tendo abandonado essa condição), também como Delegado Regional, Presidente da Delegação e Presidente da Direção Distrital em Coimbra (que chegou a atingir o maior número de associados por distrito), durante 10 anos, líder na Região Centro em tempos que já lá vão, e tendo recusado ser dirigente nacional num mandato de há 30 anos.

E já agora como médico de família, cujo estatuto profissional, académico e voluntariado conquistei, contribuí, partilhei e ensinei, sabendo-o reconhecer e distinguir de outras figurações, como clínico geral, médico de clínica geral, “não-especialista” e até médico da “Caixa”.

A APMCG assumiu sempre ser uma associação técnico-científica, embora confundindo muitas vezes a teoria com a sua prática, por vezes tivesse uns laivos de sindicalismo, não tivesse o reconhecimento do seus pares, os médicos hospitalares reivindicavam ser os especialistas “exclusivos” e teve até a invídia dos médicos de saúde pública, na época pouco prestigiados (injustamente) e designados “médicos de retretes e croquetes” (capciosamente).

A “Associação”, como carinhosamente era tratada, debateu e produziu modelos de organização em saúde (o “livro azul”, o mais conhecido), organizou múltiplos núcleos de formação paralela e inovadora em relação à formação complementar e específica do Estado, gerou receitas “obscenas” provenientes da sua profusa atividade (que não se confundia com ação prolixa) e da compensação da indústria farmacêutica, teve equipas e Presidentes (três, com perfis muito diferentes) em que nem sempre equipa e Presidente ocupavam cada um o seu lugar.

Foi um período de mobilização médica, de conquista pela creditação profissional, de defesa de direitos próprios e especificidades inerentes, de adesão pelos doentes e movimentos de utentes, de impacto na comunidade, na comunicação social e nas profissões do saber.

O jornal “Médico de Família” era um órgão prestigiado interpares e na sociedade, dirigido superiormente pelo Falcão Tavares (único nome que aqui vou citar, por devido mérito), com uma equipa médica que estudava o livro de estilo do jornalismo, com uma dinâmica que percorria o País e os problemas com soluções e sem tergiversações, com uma motivação que envolvia os milhares de médicos de família (e não apenas 500 eleitores como agora verificámos na pugna eleitoral).

Mas os projetos qualificados e de sucesso criam “anticorpos” e a deterioração e os interesses que não eram contemplados levaram à extinção do jornal, e mesmo uma reedição posterior (menos conseguida) da equipa que agora venceu o acto eleitoral, não conseguiu sobrevivência, sustentabilidade e empowerment.

A transição APMCG + APMGF para a nova comunicação personalizada e on-line não foi feita com humanismo, o ego e a arrogância de então neófitos que se perpetuaram levou à presunção, à sobranceria e linguagem vazia e ao afastamento dos médicos de família da sua “Associação” (votaram agora 10%, quantos sócios ainda existem?), que não se sentem representados por simulacros de peralvilhos, mesmo havendo pessoas de boa vontade.

A criação das USF, sendo a continuidade do estudo dos modelos organizacionais em saúde e do regime remuneratório experimental fomentado pela APMCG / APMGF, era uma oportunidade de reconhecer os médicos de família como o pilar dos cuidados de saúde primários, como os arautos da defesa das populações e direito à saúde, sem esquecer a vertente técnico-científica de topo, a manutenção e progressão das carreiras médicas e a inovação pela valorização do desempenho.

Não foi isso que aconteceu (por conluio de decisores e dirigentes), pelo que isentar os dirigentes associativos dessa responsabilidade de liderança por valores, é pactuar com os erros da História, com o individualismo e o oportunismo seletivo por objetivos de ganho a todo o custo e contra quem tiver de ser, com a destruição das carreiras médicas que passaram a ser desvalorizadas e ignoradas, com o arremedo de fraude e suspeitas mais do que indiciadas, com a cumplicidade do poder quiçá a troco de redução indiscriminada de custos em prescrição clínica e exames auxiliares de diagnóstico.

E onde estão os doentes, no meio dos Donos Disto Tudo? Há doentes de primeira (quem é bem tratado, independentemente da unidade orgânica e das restrições de medicamentos e exames) e doentes de segunda (quem está sujeito a prescrição ou exames, consoante prémios para cuidadores), tal como há médicos de primeira (os que fazem o que é necessário para os seus doentes, independentemente de trabalhar em USF ou UCSP) e médicos de segunda (aqueles que condicionam a sua ação para estar em modelo B, aterrorizados ou motivados pelos indicadores).

Hoje há médicos de família? Um médico de família não é um burocrata cujo fulcro de ação é o telefone para contactos COVID (pomposamente chamada erradamente “telemedicina”), passar “baixas” por encomenda (via digital), renovar receituário sem observar o doente periodicamente, seus efeitos e reavaliação, fazer relatórios para Juntas Médicas que estão paradas, cuidar / “trabalhar” para os indicadores de produtividade e económico-financeiros e, quando há uma nesga de tempo disponível, fazer consulta presencial. Ora, a consulta é o ato central da Medicina (Pendleton). Onde se ouve, se observa, se avalia, se decide e fazem planos. E, por isso, deve ser predominante.

O desafio que lanço à equipa “Ser APMGF” é que seja uma “Nova APMGF”. Não em demagogia, em floreado que nada diz, em palavreado que só procura a rentabilidade. Mas sim, que seja a “Associação” que produz e publica ciência não apenas dos “amigos”, que não discrimina médicos de UCSP favorecendo USF A e (principalmente) B, que tenha dignidade e fale verdade com decisores, interpares e comunidade (incentivos e verdadeiras consultas), que retome o diálogo com as organizações médicas sobre as carreiras médicas e a sua não destruição, que não seja um clã e se dê ao respeito e respeite todos os médicos de família e o médico de família em si, que não é apenas um médico geral.

Ser médico de família é muito mais do que ser um médico geral, como agora é (independentemente do nome, que é bonito, e é útil para os decisores gerarem votos). É cuidar da família, em estudo (indicadores da família) e ciência (da saúde da família), olhos nos olhos, lado a lado, aquele toque, aquele conselho, aquele abraço (brevemente…).

“Ser APMGF” não podem apenas as moscas a mudar, a nova geração com novos protagonistas e alguns carreiristas instalados ou em ascensão, com programas de ação só de papel, com ausência de coordenação de utopia e realidade. Então, se for assim, haverá longe e distância.

Se “Ser APMGF” for a nova (re)qualificação, dignificação e crédito do médico de família, nos médicos de família, na classe e na comunidade, então terá valido a pena a mudança na APMGF. E merecerão encómios dos médicos e dos doentes.

Por Hernâni Caniço

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