Sertralina na depressão em CSP: menos ansiedade, mais qualidade de vida

 

Pergunta clínica: Em adultos com sintomas depressivos, o tratamento com sertralina é mais eficaz do que o placebo?

População: adultos com sintomas depressivos
Intervenção: tratamento farmacológico com sertralina
Comparação: placebo
Outcome: sintomas depressivos às 6 semanas (Patient Health Questionnaire (PHQ-9))

Enquadramento: A depressão é habitualmente acompanhada em Cuidados de Saúde Primários (CSP), embora a maioria dos estudos com antidepressivos seja efetuada em pacientes em contexto hospitalar.

Desenho do estudo: PANDA trial – estudo randomizado pragmático, multicêntrico, duplo-cego e controlado por placebo de pacientes de 179 unidades de CSP do Reino Unido. Foram incluídos pacientes com 18 a 74 anos, com sintomas depressivos de qualquer gravidade ou duração nos últimos 2 anos, nos quais havia incerteza de benefício com antidepressivo. Os pacientes foram aleatorizados (1:1) para sertralina ou placebo e estratificados por gravidade, duração e local. Os pacientes receberam uma cápsula (sertralina 50 mg ou placebo) por dia durante uma semana e duas cápsulas por dia por até 11 semanas. O outcome primário foram os sintomas depressivos às 6 semanas pelo PHQ-9. Os outcomes secundários (avaliados às 2, 6 e 12 semanas) foram: sintomas depressivos e remissão (PHQ-9 e Beck Depression Inventory-II), sintomas de ansiedade generalizada (Generalized Anxiety Disorder Assessment, versão de 7 itens), qualidade de vida relacionada com saúde mental e física (12-item Short-Form Health Survey) e melhoria reportada pelo próprio.

Resultados: O estudo foi realizado entre janeiro 2015 e agosto 2017. 655 pacientes foram aleatorizados: 326 (50%) para sertralina e 329 (50%) para placebo. Devido a perdas de seguimento, a amostra final foi de 550 pacientes (266 no grupo sertralina e 284 no grupo placebo). Não foi encontrada evidência de que a sertralina tenha melhorado clinicamente os sintomas depressivos nas primeiras 6 semanas. A pontuação média do questionário PHQ-9 em 6 semanas foi de 7,98 (DP 5,63) no grupo sertralina e 8,76 (5,86) no grupo placebo (p = 0,41). A sertralina reduziu sintomas de ansiedade, melhorou a qualidade de vida relacionada com a saúde mental (mas não física) e ocorreu ainda melhoria na saúde mental auto-reportada. Às 12 semanas, os scores foram menores no grupo sob tratamento (6,9 vs 8,0) e o número de pacientes em remissão (PHQ-9) foi superior no grupo sob tratamento (45% vs 35%; número necessário para tratar = 10). Foram registados sete eventos adversos – quatro para sertralina e três para placebo. Um evento adverso grave no grupo sertralina foi classificado como possivelmente relacionado com medicamento do estudo.

Comentário: A evidência deste estudo suporta a prescrição de inibidores seletivos de recaptação da serotonina (SSRI) num grupo mais alargado, que inclui doentes com sintomas mais ligeiros que não cumprem os critérios de depressão ou perturbação da ansiedade generalizada. O efeito da sertralina nos sintomas depressivos poderá demorar mais a aparecer e ser mais modesto do que o efeito nos sintomas do foro ansioso. De destacar o facto de este ser, até à data, o maior ensaio controlado por placebo com um antidepressivo, não financiado pela indústria farmacêutica.

Artigo original: Lancet Psychiatry

Por Catarina Rosa, USF Beira Ria

 

 

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