Pergunta clínica: Em pessoas com obesidade, a comunicação clínica centrada nos aspectos positivos é mais eficaz para a perda de peso do que a comunicação clínica centrada nos riscos?
População: Utentes com obesidade observados em consulta de Cuidados de Saúde Primários
Intervenção: Análise da gravação de consultas a utentes com obesidade no âmbito de um programa comportamental para controlo de peso
Comparação: Comunicação pela positiva vs comunicação centrada nos riscos vs comunicação neutra
Outcome primário: Perda ponderal dos utentes aos 12 meses
Desenho do estudo: Estudo de coorte com recurso a métodos mistos, realizado em 38 unidades de cuidados de saúde primários em Inglaterra. O estudo incluiu um total de 246 utentes com diagnóstico de obesidade observados por 87 médicos de cuidados saúde primários, alocados aleatoriamente ao grupo de intervenção e encaminhados para um programa comportamental para controlo de peso, oferecido em contexto de um ensaio clínico. De acordo com os autores, as consultas foram gravadas e posteriormente analisadas.
Resultados: Foram identificadas 3 abordagens diferentes com base nas práticas linguísticas e paralinguísticas dos médicos, em particular: abordagem centrada em “boas notícias” relacionadas com a oportunidade de encaminhamento para o programa de controlo de peso (n=62); foco em “más notícias”, em particular, nos malefícios e riscos da obesidade (n=82); ou “neutro” (n=102). Os autores remetem para a necessidade de realizar uma análise ponderada dos resultados, tendo em conta que verificaram a ausência de dados relativa a 57 participantes do estudo. Em comparação com a abordagem “neutra”, as “boas notícias” mostraram uma maior concordância por parte dos utentes em aderir ao programa de controlo de peso (diferença de risco ajustada, 0,25 [IC 95%, 0,15 a 0,35]), aumento da sua participação (diferença de risco ajustada, 0,45 [IC, 0,34 a 0,56]) e na perda ponderal (diferença ajustada, -3,60 [IC, -6,58 a -0,62]). Importa salientar, que não foi demonstrada evidência de diferença na variação média ponderal, comparando a abordagem “neutra” com a centrada em “más notícias”, assim como, na satisfação dos utentes em relação às três abordagens apresentadas.
Comentário: A obesidade assume-se como uma crescente preocupação a nível mundial. De acordo com as estimativas do Atlas Mundial da Obesidade 2023 (WOF), os níveis globais de excesso de peso e obesidade (IMC ≥25kg/m2) poderão atingir mais de 4 mil milhões de pessoas até 2035, em comparação com mais de 2,6 mil milhões em 2020. Por sua vez, em relação à obesidade (IMC ≥30kg/m2) prevê-se de acordo com a mesma fonte, um aumento de 14% para 24% da população durante o mesmo período, afetando quase 2 mil milhões de pessoas até 2035. A este nível, os autores remetem para as recomendações das diretrizes internacionais, em que os médicos devem reconhecer a obesidade e oferecer tratamento de forma oportunista a nível dos Cuidados de Saúde Primários.
No âmbito deste estudo coorte, foi possível verificar que a abordagem do excesso de peso durante as consultas e a apresentação do programa de tratamento para o seu controlo numa perspetiva positiva se associou a uma maior adesão e a maior perda de peso.
No estudo, a análise dos dados apenas por áudio, foi apontada como limitação por parte dos autores, na medida em que não foi possível a avaliação da linguagem corporal e dos sinais não-verbais dos intervenientes. Por sua vez, foi ainda salientada a possibilidade de viés na seleção e confusão residual.
Artigo original: Ann Intern Med
Por Pedro Alexandre Ribeiro, USF Penela
