A esquizofrenia da vacinação COVID-19 e da recuperação das consultas programadas

 

 

O Governo, deveria sim, estar a tentar encontrar medidas de incentivo à contratação de profissionais dedicados para os Centros de Vacinação, abrir concursos para colocar Médicos, Enfermeiros, Assistentes Técnicos e Assistentes Operacionais nas Unidades Funcionais, e ouvir os profissionais, em vez de andar nesta dança esquizofrénica em que parece não saber bem qual a sua prioridade.

 

Como é sabido, durante os primeiros meses da Pandemia COVID-19 muitas consultas programadas presenciais foram suspensas em todos os níveis de cuidados, quer a nível dos Cuidados de Saúde Primários (Centros de Saúde), quer a nível dos Cuidados de Saúde Secundários (Hospitais). No entanto, isso não significou que os cuidados não continuassem a ser prestados. A nível dos Cuidados de Saúde Primários tivemos que nos reinventar, as consultas passaram a ser realizadas através de telefone, via mail ou mesmo presencial quando a situação o requeria e respeitando os serviços mínimos definidos pela ARS Centro, e foram ainda criados centros de atendimento ao doente com suspeita de infeção por COVID-19 e escalas para acompanhamento telefónico de doentes via trace.

Seguiu-se em julho de 2020 um período mais calmo, em termos pandémicos, que nos permitiu, progressivamente, ir retomando as consultas presenciais. Mas a partir de dezembro 2020 tivemos que voltar ao frenesim da primeira vaga, com a agravante do maior número de casos e a impossibilidade de fechar as portas.  E até meados de março de 2021 fomos sobrevivendo à tona da água. Muitas férias ficaram por gozar em 2020 e muitas horas extra foram realizadas.

Paralelamente, em março iniciou-se a vacinação populacional contra a COVID-19, primeiro de forma tímida e agora a grande escala, e que se prevê que se prolongue até setembro/outubro de 2021. É-nos imposto que dêmos prioridade a esta atividade, nem que para isso tenhamos que voltar aos serviços mínimos ou reduzir ainda mais a oferta assistencial à nossa população e horário de funcionamento das Unidades. Soluções que permitam manter o normal funcionamento das Unidades, concentrando a vacinação em menos dias da semana, sem, contudo, reduzir a oferta vacinal semanal não são aceites, porque não fica bem na fotografia e os Munícipes querem os centros de vacinação a funcionar diariamente. Se Unidades tiverem que fechar ou reduzir oferta assistencial parece não importar, como se só se morresse de COVID-19 em Portugal e todas as outras doenças não fossem importantes, como acompanhamento de doentes diabéticos, hipertensos, rastreios oncológicos, acompanhamento de grávidas e crianças.

Mas, estranhamente, surge a 10 de março 2021 a Portaria n.º 54/2021, que veio estabelecer um incentivo excecional à recuperação de consultas presenciais nos cuidados de saúde primários para ser aplicada em 2021. Afinal já é para aumentar a oferta de consultas presenciais? Como pretendem, que consigamos cumprir isto tudo com o mesmo número de profissionais? Porventura, acham que temos trabalhado pouco, que não estamos a precisar de férias e de tempo de qualidade com as nossas famílias, como as demais pessoas?

O Governo, deveria sim, estar a tentar encontrar medidas de incentivo à contratação de profissionais dedicados para os Centros de Vacinação, abrir concursos para colocar Médicos, Enfermeiros, Assistentes Técnicos e Assistentes Operacionais nas Unidades Funcionais, e ouvir os profissionais, em vez de andar nesta dança esquizofrénica em que parece não saber bem qual a sua prioridade.

Por Joana Vale

 

 

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