A desinformática

“(…) existem custos económicos de não se efetuarem os necessários investimentos em infra-estruturas”

Alfredo Marvão Pereira in” Os investimentos públicos em Portugal”

 

Parábola apócrifa: Naquele tempo, vivia um hortelão que todas as madrugadas se dirigia para  o campo. Ao fim da tarde regressava com produtos do seu labor para os vender no mercado. Como fossem estes abundantes e longa a distância a percorrer decidiu comprar um burro. Mas desejando manter os talentos que havia granjeado com o suor do seu rosto,  escolheu o jerico mais barato, sem cuidar da sua força e caracter. Ora o animal cedo se revelou lento, teimoso e caprichoso. Ao invés de facilitar a vida ao hortelão o onagro fazia-lhe a vida num inferno. Recusava-se a caminhar, seguia por onde queria e não pelo trilho e rejeitava a carga com que o hortelão o ajoujava. Dirigiu-se este a um santo homem  e falou assim: “O asno que comprei não tem préstimo. Que devo fazer mestre?””Compra outro” retorquiu aquele. “Mas não quero gastar mais dinheiro” ”Então abandona-o no deserto e volta a andar a pé”. Palavra de sabedoria.

Os computadores imiscuíram-se irrevogavelmente na nossa vida. Os telefones tornaram-se computadores que também permitem fazer telefonemas, as televisões mais modernas são computadores onde também se vê televisão e até os automóveis se estão transmutando em computadores sobre rodas e munidos de motor. Estranho seria que o exercício da medicina pudesse prescindir da informática. Pode mesmo dizer-se que é difícil conceber atividade humana em que não seja imprescindível. Com uma condição: funcionar decentemente. Ora a informatização dos cuidados de saúde, neste cantinho lusitano, não é propriamente uma história de sucesso, veja-se o PEM, o RNU, etc..

 Talvez se possa dizer que em três frentes em que as coisas correm mal: o software, os servidores e a rede de comunicações.

Ao que parece o estado da arte no que toca ao software médico não estará ainda suficientemente avançado (cá e por todo lado), mandando-nos, portanto, a prudência não desenvolver este ponto. Os servidores são obsoletos, quase oligocénicos.

Mas é no domínio das comunicações com os terminais, particularmente nas extensões de saúde, que a situação se tornou dramática. E mais dramática a aparente ausência de sensibilidade da tutela. A situação económica do País não é de molde a permitir grandes despesas, mas é por isso mesmo que se torna urgente investir numa rede de comunicação eficaz. Infelizmente ninguém na tutela encarou os custos do péssimo funcionamento da rede: quantas horas de trabalho perdidas com demoras inadmissíveis, com as frequentes interrupções de dimensões “matusaleónicas”. Já para não falar no desgaste psicológico do profissional que passa, literalmente, horas por semana a ver rodinhas a girar ou barras a saracotear-se dum lado para o outro, enquanto os programas não abrem. No país tão mal colocado na escala da produtividade é deplorável que seja o estado a desdenhar da eficiência dos seus serviços. Manter o atual status quo é, mais do que desrespeitar os profissionais no terreno: é uma intolerável falta de consideração pelos utentes e um inadmissível desprezo pelo dinheiro dos contribuintes. A relutância da tutela em investir no hardware e na rede de comunicações lembra os autarcas duma megalopolis que diziam não ter dinheiro para reparar a rede de distribuição de água que registava perdas de 50%. Mas tinham dinheiro para suportar os custos do desperdício!

Mas regressemos ao software onde, curiosamente, o investimento em inovação por parte da tutela é inquestionável. Se as inovações que se anunciam (e falham!) vão no bom sentido não interessa ao caso. O que ressalta é a aberrante contradição entre o fervor inovador do PEM, PDS e quejandos, e o imobilismo no que se refere ao hardware. A informática do ministério da saúde assemelha-se a um disforme gigantone com pés de barro. Em vez de uma ferramenta de potenciadora da produtividade, temos entre mãos um instrumento de bloqueio, de improdutividade.

Se os estrategas do ACSS insistem nesta estratégia assimétrica e desastrosa mais vale esquecerem a informática e regressarmos ao papel.

Acácio Gouveia, aamgouveia55@gmail.com

(artigo publicado em simultâneo no MGFamiliar e no Jornal Médico)

 

 

 

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