Questiono-me muitas vezes se não seria benéfico integrar de algum modo as artes no ensino da medicina. E não me refiro apenas às artes plásticas, mas a outras formas de expressão artística, como a música, a literatura, o teatro, o cinema e as novas artes performativas.
Numa era em que existe uma enorme preocupação, sobretudo por parte dos corpos docentes, das nossas faculdades de medicina, no sentido de assegurar, com a maior eficiência possível, a dimensão humanista da formação que é ministrada aos futuros médicos, creio que a integração nos planos curriculares de uma cadeira que permitisse uma abordagem crítica das diversas formas de expressão estética poderia ajudar muitos estudantes de medicina a desenvolver a sua sensibilidade humanista e, desse modo, melhorar a sua capacidade de captar e interpretar as inúmeras formas de expressão que cada pessoa, enquanto paciente, pode aportar no seu contacto com o médico.
Ainda recentemente, quando assistia a um filme comentado pelo Prof. Dr. Roma Torres, integrado num ciclo de cinema organizado pela comissão de curso dos alunos do 4º ano da Faculdade de Medicina do Porto, dei comigo a reflectir sobre algumas das questões éticas que o filme levantava, a partir de perspectivas de análise dos problemas que vão para além das abordagens científicas que integram os cânones académicos. Confesso que, nesse dia, saí dali sentindo que na minha mente houve assim como um clique que me despertou para outras visões do Mundo e, particularmente, da pessoa humana, que não encontro nos conteúdos programáticos das várias cadeiras do curso de Medicina.
Por outro lado, quando ouço música, principalmente aquela que tem por base histórias e dramas de vida, em que a palavra também é convocada para tomar parte na composição do objecto estético musical, tomo também consciência de que a natureza humana, na sua vulnerabilidade à doença e sensibilidade ao sofrimento qualquer que ele seja, mental, físico ou espiritual, permanece quase imutável.
Para quem, como eu, deseja abraçar a medicina como vocação para servir, talvez não seja nenhum disparate aceitar que faria algum sentido ver no curriculum dos cursos de medicina uma área de formação no âmbito das artes, como aliás, já houve em tempos idos.
Claro está que, a ser possível, o enriquecimento do ensino da medicina com uma cadeira ou um seminário versando o tema da saúde e da doença, tendo como centralidade as formas de expressão estética do ser humano, teria de ter um enquadramento adequado à cultura dominante em cada sociedade.
Mas se tal não for possível, penso que haveria todo o interesse e vantagem, em apoiar a intensificação da vida artística e cultural protagonizada pelos alunos de medicina, em saudável interacção com os professores, de modo a facilitar o estabelecimento de uma comunicação de maior proximidade, liberta dos rigores hierárquicos académicos, graças à partilha de opções de gosto e interesses artísticos e culturais comuns.
A eficiente capacitação científica e técnica é um desiderato vital que todos os médicos devem adquirir na sua formação, mas essa dimensão, será tanto mais útil e eficaz, se a dimensão humana acompanhar esse alto perfil e alto desempenho.
Creio, mas creio profundamente, que se os jovens estudantes de Medicina tiverem acesso à formação de uma consciência estética e cultural crítica e tiverem oportunidade de estimular a sua sensibilidade ao Belo Humano, através de uma cultura da atenção a tudo quanto é expressão do corpo e da alma, hão-de tornar-se médicos portadores de uma melhor visão holística, de cada pessoa que vier a precisar dos seus cuidados.
Ana Lídia Rouxinol Dias
