Um novo fármaco para tratamento da gripe




Pergunta clínica: Em adultos com gripe, o tratamento com baloxavir é eficaz e seguro? E será mais eficaz e seguro do que o oseltamivir?

Enquadramento: Nos últimos anos, a oferta terapêutica no combate ao vírus influenza tem-se baseado nos fármacos inibidores da neuraminidase e inibidores dos canais iónicos M2. No entanto, o aumento progressivo das resistências aos antivíricos disponíveis tem potenciado a procura de novas armas no tratamento das infeções provocadas por este agente. O baloxavir, um pró-fármaco inibidor seletivo da endonuclease do vírus influenza, demonstrou, em estudos de fase 1, redução da mortalidade e atividade eficaz contra os vírus influenza A e B, incluindo em estirpes resistentes aos agentes antivíricos atuais.

Desenho do estudo: Foram realizados dois ensaios clínicos randomizados e duplamente cegos. No estudo de fase 2 administraram-se doses únicas de baloxavir (10, 20 ou 40mg) ou placebo em adultos com idades entre os 20 e os 64 anos com infeção por influenza confirmada por testes antigénicos, entre dezembro de 2015 e março de 2016. No estudo de fase 3 foram administrados baloxavir (doses ajustadas ao peso dos doentes), oseltamivir (75mg 2 vezes por dia, 5 dias) ou placebo a doentes com síndrome gripal entre 12 e 64 anos de idade, de dezembro de 2016 a março de 2017. Foram avaliadas a gravidade e duração dos sintomas (tosse, odinofagia, cefaleia, congestão nasal, febre, mialgias e fadiga) e a evolução da temperatura corporal nos 15 dias após o início dos sintomas. Foram também avaliados parâmetros laboratoriais (hemograma, bioquímica, sedimento urinário) para confirmação da segurança farmacológica no mês após início da sintomatologia.

Resultados: No estudo de fase 2 (389 participantes), 60-71% estavam infetados pelo vírus influenza A. O tempo médio para alívio dos sintomas com baloxavir foi inferior para todas as doses (54, 51 e 49 horas vs. 77 horas com o placebo, p<0,05), e a redução da carga viral foi significativamente maior com a toma do fármaco, comparativamente com o placebo. Foram relatados efeitos adversos em 23-27% dos participantes com baloxavir e 29% com o placebo, que não implicaram a suspensão do estudo. No estudo de fase 3 (1064 participantes), 84,8-88,1% estavam infetados pelo vírus influenza A. O tempo médio para alívio dos sintomas foi semelhante entre baloxavir e oseltamivir, e inferior ao placebo (média 53 vs. 80 horas), sendo esta diferença mais marcada quando a toma era efetuada nas primeiras 24h de doença. O baloxavir foi associado a um declínio significativamente mais rápido na carga viral do que o oseltamivir ou o placebo. Os eventos adversos foram mais comuns com o oseltamivir (24,8%) do que com o baloxavir (20,7%, p<0,05) ou placebo (24,6%).

Conclusão: O estudo de fase 2 mostrou que doses únicas de baloxavir foram mais eficazes do que o placebo no alívio dos sintomas em doentes com infeção não complicada pelo vírus influenza, sem efeitos adversos clinicamente significativos. No estudo de fase 3, o baloxavir foi superior ao oseltamivir e ao placebo na atividade antivírica, apesar de o tempo de alívio de sintomas entre baloxavir e oseltamivir ter sido semelhante (principalmente se administrado nas primeiras 24 horas).

Comentário: Em Portugal, o principal fármaco disponível atualmente em ambulatório contra o vírus influenza é o oseltamivir (75mg, 2 vezes por dia, 5 dias). Este é mais eficaz se utilizado nas primeiras 48 horas de doença, reduzindo o período sintomático e a carga viral. O baloxavir oral, já aprovado pela Food and Drug Administration nos Estados Unidos, abre caminho a uma nova classe farmacológica com poucos efeitos adversos evidentes e que pode ser usada como alternativa nas estirpes do vírus influenza resistentes a oseltamivir. 

Artigo original: N Engl J Med

Por Mariana Mina, USF A Ribeirinha



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