Canábis e distúrbios psicóticos

 

 

Pergunta clínica: O uso de canábis de elevada potência está associado a distúrbios psicóticos?

Enquadramento: a canábis é a droga ilícita mais popular no mundo, existindo evidência comprovada em múltiplos estudos do risco aumentado de esquizofrenia nos consumidores. É actualmente considerada o principal factor de risco prevenível de esquizofrenia, tendo vindo a ser sugerido que o risco de eventos adversos depende do grau de potência do tipo de canábis utilizada.

Desenho do estudo: Estudo caso-controlo realizado entre Maio de 2005 e Maio de 2011 na NHS Foundation Trust em Londres, correspondendo os casos a todos os indivíduos com idade compreendida entre os 18 e os 65 anos que se apresentassem com primeiro episódio psicótico, excluindo-se os que preenchessem os critérios de psicose orgânica. Os controlos, voluntários, foram seleccionados com base em anúncios (na Internet e em jornais), sendo excluídos os que preenchessem critérios de perturbação psicótica ou com antecedentes de doença psicótica. Obtiveram-se dados sociodemográficos, história de consumo de álcool, tabaco e outras drogas e, quando presente, informação detalhada quanto ao consumo de canábis, nomeadamente idade do primeiro consumo, duração, frequência e tipo de canábis consumida.

Resultados: os casos corresponderam a 410 pacientes, tratando-se na maioria do sexo masculino e os controlos 370 pacientes com características sociodemográficas semelhantes. Quando comparados com os controlos, os casos apresentavam idades mais jovens, menor nível educacional e maiores consumos de tabaco. Não foi documentada diferença estatisticamente significativa quanto ao consumo de substâncias ilícitas, incluindo canábis, ou de álcool. Contudo houve diferença estatisticamente significativa nos casos quanto avaliadas as taxas de consumo diário de canábis e uso de canábis de elevada potência. Quando se analisa a fracção atribuível de distúrbios psicóticos ao uso de canábis de elevada potência obtém-se um valor de 24% e quando se combina o consumo de elevada potência ao uso diário, obtém-se um valor de 16%.

Conclusão: o consumo de canábis de elevada potência, e o consumo mantido e diário de canábis aumentam o risco de distúrbios psicóticos.

Comentário: O consumo de canábis tem estado sob os holofotes dos média. Não raramente o seu consumo é defendido com base em pseudociência. Este estudo foi amplamente divulgado pela comunicação social, pois contou com a participação do psiquiatra português Tiago Reis Marques, distinguido recentemente com o prémio de Melhor Jovem Investigador, no 15º Congresso Internacional de Investigação da Esquizofrenia. Fica assim evidente que, no sentido do diagnóstico precoce e da prevenção primária, o médico de família deve abordar o consumo de canábis, nomeadamente, nas consultas de saúde infantil e juvenil.

Artigo original:The Lancet Psychiatry

Por Ana Rita Magalhães, USF Topázio  

 

 

 

A não perder
Menu