Ingestão de altas doses de cálcio associada a aumento da mortalidade e do risco cardiovascular em mulheres

Por Ana Mafalda Macedo, UCSP Carvalhido

Pergunta clínica: Existe alguma relação entre a ingestão prolongada de baixas ou altas doses de cálcio, em suplementos ou na dieta, e a mortalidade por todas as causas e por doença cardiovascular?

Desenho do estudo: Trata-se de um estudo coorte prospectivo longitudinal que consistiu, numa primeira fase (1987-1990), no envio de um questionário sobre hábitos alimentares e estilo de vida a todas as mulheres (nascidas entre 1914 e 1948) convocadas para o rastreio por mamografia em duas cidades da Suécia. Posteriormente, em 1997, um segundo questionário mais detalhado foi distribuído a todas as mulheres desse grupo que ainda residiam na área de estudo. O follow-up foi realizado através do registo nacional de mortalidade e causa de morte daquele país. Os principais outcomes a avaliar foram a mortalidade por todas as causas, a mortalidades por doença cardiovascular, nomeadamente, doença cardíaca isquémica, e a mortalidade por AVC. A ingestão de cálcio foi estimada a partir de dados obtido pelos questionários aplicados, sendo que se considerou como ingestão total de cálcio a soma do cálcio dietético e do cálcio suplementado.

Resultados: O estudo incluiu 61433 mulheres, com idades compreendidas entre os 39-73 anos, com um follow-up mediano de 19 anos. Verificou-se que comparativamente aos consumos de 600-1000 mg/dia de cálcio, um consumo diário de cálcio superior a 1400 mg se associou a maior incidência de mortes por todas as causas (risco: 1.40, IC: 95%), por doenças cardiovasculares (risco: 1.49) e doença coronária (risco: 2.14), não ocorrendo, no entanto, relação com a mortalidade por acidente vascular cerebral (risco: 0.73). Quando neste consumo elevado de cálcio (>1400 mg/dia) se observou a ingestão de suplementos de cálcio, a mortalidade por todas as causas apurada foi ainda mais elevada (risco: 2.57). Adicionalmente, observou-se que a ingestão de doses não elevadas de cálcio (inferiores a 600 mg/dia) não se relacionou com aumento da mortalidade.

Comentário: Verificou-se que a ingestão de altas doses de cálcio (maiores do que 1400 mg/dia) estão estatisticamente associadas a aumento da mortalidade global e por doença cardiovascular, não se correlacionando no entanto com a mortalidade por AVC. Este aumento na mortalidade foi moderado nos indivíduos com ingestão de altas doses de cálcio na dieta, mas mostrou ser ainda mais elevado naqueles cuja ingestão incluía suplementos de cálcio. A ingestão de baixas doses de cálcio mostrou apenas diferenças modestas no risco. Assim, os autores defendem que os esforços na prevenção de fracturas nos idosos deverão focar-se nos indivíduos com baixa ingestão de cálcio em vez de incidir sobre aqueles que apresentam já consumos satisfatórios.

                                                                                                                                                                              Artigo original

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