Dilermando Sobral

Ao longo da minha vida, incontáveis são os livros que játoquei, inúmeros os que verdadeiramente me tocaram e muitos aindaaqueles cujo toque deixou uma marca indelével, mais profunda nuns do quenoutros. É por isso difícil evocar apenas um ou dois. Mas não querendodesiludir o autor do convite nem iludir a curiosidade de quem lê estarubrica, consegui destacar três leituras que se tornaram, para mim, emdiferentes idades, marcos significativos do meu percurso de leitorcompulsivo.

Outras leituras: “A Fada Oriana” de Sophia de Mello Breyner Andresen, Editora Figueirinhas, 34.ª edição, 2002, Porto (1.ª edição, 1958, Lisboa, Edições Ática)

A história de uma fada que um dia sofreu o castigo de ficarsem asas por, de tanto admirar a beleza do seu reflexo no rio, se teresquecido de cuidar dos seres que habitavam a floresta. E do que teveque fazer para reaver todos os seus poderes e recuperar a confiança dosque estavam à sua guarda.

Li-o, a primeira vez, aos nove anos e a magia poética desteconto marcou-me, permanecendo como símbolo da importância de valoresfundamentais como a responsabilidade, o sentido do dever e a humildade.

O primeiro exemplar perdeu-se, entretanto, nas curvas davida mas comprei-o, mais tarde, para os meus filhos. Ou seria issoapenas uma desculpa para o voltar a ler e continuar a acreditar emfadas?

«- Chegou a noite! Como o tempo passou depressa!
Então lembrou-se de que era a hora de ir visitar o seu amigo Poeta.Porque a única pessoa crescida a quem Oriana podia aparecer era aoPoeta. Porque ele era diferente das outras pessoas crescidas.
O Poeta morava no fundo da floresta, numa torre muito alta e muito antiga, coberta de heras, de glicínias e de roseiras.
Oriana voou sobre as árvores através do primeiro azul da noite. A portada torre estava aberta, mas Oriana entrou pela janela com a brisa. Asrosas da trepadeira estremeceram e dançaram quando ela chegou.»

Outras leituras: “Poemas de Alberto Caeiro” de Fernando Pessoa, 10.ª edição, 1993, Lisboa, Edições Ática (1.ª edição, 1946)

Uma valente bofetada, que me deixou completamente atordoado,foi exactamente o que senti quando li, pela primeira vez, os poemas deAlberto Caeiro, nos longínquos anos da minha adolescência.

Apercebi-me, com esse enorme safanão, da força e do poderdas palavras e a referência a este livro surge apenas como uma homenagema toda a poesia (“o autêntico real absoluto”, segundo Novalis) e atodos os poetas que me têm acompanhado, desde então.

«A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.»

Leituras médicas: “Sinto Muito” de Nuno Lobo Antunes, Editora Verso da Kapa, 2008, Lisboa

Dos livros lidos mais recentemente, este foi realmentemarcante. É um livro médico, no sentido em que só um médico o poderiater escrito, e que todos os médicos deveriam ler.

São pequenas crónicas, ‘textos mais ligados ao sentimento doque à razão’, nas palavras do autor, neuropediatra que trabalhou muitosanos em oncologia.

Livro de confissões, memória dos olhares, dos sons e doscheiros de muitas vidas, reflexão sobre a vida e a morte, testemunho dacoragem de pessoas que sabem dar significado ao sofrimento, sentido àdor.

Como médicos, tentamos criar mecanismos de defesa paraconseguir lidar com o sofrimento alheio e evitar que isso nos atinja,mas como seres humanos, por vezes é-nos difícil manter essa carapaça eas emoções podem tomar conta de nós.

Escrever, do modo como o faz Nuno Lobo Antunes, é partilhar essas emoções e dizer aos outros que vale sempre a pena!

«É preciso afirmar aquilo em que se acredita. É precisousar as palavras: fé, amor, vergonha, coragem. É preciso dizer que apaixão, mais que a razão, redime e nos torna em santos.
E, sem pudor dos afectos, confessar que sinto muito.»

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