
Perguntas clínicas: em indivíduos assintomáticos e sem factores de risco vale a pena rastrear a doença renal crónica? Como monitorizar e medicar a doença renal crónica nos estadios iniciais?
Enquadramento: Os estadios iniciais da doença renal crónicasão quase sempre assintomáticos e estão associados a mortalidade, doença cardiovascular, fracturas, perda de massa óssea, infeções, deterioração cognitiva e fragilidade. Os principais factores de risco para a doença renal crónica incluem a diabetes, hipertensão e doença cardiovascular.
Tipo de estudo: Norma de orientação clínica da American College of Physicians (ACP) fundamentada numa revisão baseada na evidência. Foi avaliada a literatura publicada sobre este tema desde 1985 até Novembro de 2011, na Medline e Cochrane Database of Systematic Reviews, em língua inglesa. Foi usado o sistema de classificação da ACP. Os resultados clínicos avaliados incluíram a mortalidade por qualquer causa de morte, mortalidade cardiovascular, EAM, AVC, IC, outras complicações vasculares e renais, doença renal crónica terminal e qualidade de vida.
Resultados: 1) Não é recomendado o rastreio de doença renal crónica em adultos assintomáticos e sem factores de risco; 2) Não é recomendado o rastreio e monitorização da proteinúria em adultos com ou sem diabetes, que estejam medicados com inibidor da enzima de conversão da angiotensina (IECA) ou antagonista dos receptores da angiotensina (ARA); 3) doentes com hipertensão e doença renal crónica (estadios 1 a 3) recomenda-se terapêutica com IECA ou ARA; 4) doentes com níveis elevados de colesterol LDL e doença renal crónica (estadios 1 a 3) devem ser medicados com estatina.
Comentário: Não existe evidência de que o rastreio de doença renal crónica em adultos sem factores de risco, bem como a avaliação da proteinúria em doentes já medicados com IECA ou ARA evitem a progressão para doença renal terminal ou diminuam a mortalidade. Fazê-lo acarretará falsos positivos, exames e tratamentos desnecessários, iatrogenia, consumo de consultas e, em última análise, maior despesa de saúde, sem qualquer benefício para o doente. As duas classes farmacológicas mais importantes nos doentes com DRC estadio 1 a 3 são, por um lado, os IECA ou ARA em monoterapia reduzem a progressão para doença renal terminal. As estatinas reduzem a mortalidade, incluindo a morbi-mortalidade cardiovascular. Na prática clínica diária muitos dos nossos doentes em estadios iniciais da doença renal crónica encontra-se medicados com IECA ou ARA e com uma estatina.
Artigo original: Annals of Internal Medicine
Por Salomé Cardoso, UCSP Mira
