
Pergunta clínica: Qual é a melhor estratégia de tratamento para doentes adultos sintomáticos com litíase biliar não complicada: colecistectomia laparoscópica ou tratamento conservador?
População: doentes adultos com litíase biliar sintomática não complicada
Intervenção: colecistectomia laparoscópica
Comparação: tratamento conservador (observação e prescrição de analgésicos para aliviar a dor biliar)
Outcome: qualidade de vida medida através da área abaixo da curva através do domínio de dor corporal do 36-Item Short Form Survey (SF-36)
Desenho do estudo: Neste ensaio clínico randomizado sem ocultação, 434 doentes foram aleatorizados e distribuídos por dois grupos com duas estratégias diferentes:
a) Colecistectomia laparoscópica e, quando necessário, conversão para cirurgia aberta ou se dificuldade na remoção segura da vesícula;
b) Tratamento conservador com observação e prescrição de analgésicos necessários para aliviar a dor biliar (paracetamol, AINE, opiáceos e antiespasmódicos), juntamente com aconselhamento sobre um estilo de vida saudável.
O marcador primário foi a qualidade de vida relatada pelo paciente medida através da área abaixo da curva através do domínio de dor corporal do SF-36 até 18 meses após a randomização.
Resultados: Relativamente ao marcador primário, não se verificaram diferenças significativas em ambos os grupos até aos 18 meses. Em relação aos marcadores secundários, a área sob a curva para dor corporal SF-36 até 24 meses, assim como os outros domínios do questionário SF-36 aos 24 meses, não diferiram entre os dois grupos. Aos 18 e 24 meses, os resultados do questionário específico da condição foram piores no grupo de tratamento conservador em comparação com o grupo de colecistectomia. Resultados semelhantes foram observados para persistência de sintomas. Não se encontraram diferenças significativas entre os dois grupos no que concerne às complicações ou necessidade de tratamento adicional. Verificou-se também que a abordagem conservadora economizou £1.033 ao longo do tempo, após contabilizar o uso de fontes de saúde durante 18 meses. Também não se verificou diferença ao nível dos Anos de Vida Ajustados pela Qualidade (QALYs).
Comentário: Este estudo mostra que os doentes com cálculos biliares não complicados podem ser tratados com analgesia e monitorização, embora cerca de 25% acabem por ser submetidos a colecistectomia nos 18 meses seguintes. Ainda assim, parece não haver necessidade de apressar a cirurgia nos pacientes sem evidência de bloqueio do ducto biliar comum ou pancreatite aguda. Investigação adicional com acompanhamento dos doentes a longo prazo (>24 meses) para estabelecer a custo-efetividade ao longo da vida e ajudar na identificação da coorte de pacientes que beneficiarão da cirurgia será muito útil.
Por Rebeca Cunha, USF Trilhos Dueça
