Estórias do consultório II: quando os doentes nos encontram

 

Naquela manhã, todo eu era Gregor Samsa [1]. A rotina pesava-me nas insectiformes patas.
Uma chávena e um prato.
Um casaco.
Outro casaco.
Os sapatos.
As chaves.
Semáforo.
Escola.
Um beijo que me devolve a forma humana por segundos.
[Manhã de consultas – vamos a isto.] E, de repente, no final de uma consulta que me parecia igual a tantas outras, diante de mim, a doente recostou-se na cadeira e disse:
– Ainda bem que o encontrei…um médico que se importa, que me ouve.
Nesse dia, por causa dessas palavras, fui eu que me encontrei a mim mesmo.
E dos encontros vêm escolhas e tantas vezes das escolhas decorrem encontros – na Medicina e na vida. Foi assim que lembrei Sartre [2] – “escolhendo-me, escolho o homem”.
Que nunca eu esqueça – mesmo nos dias em que a rotina mais pesa – que quando me escolho como médico, de alguma, forma, faço uma escolha por todos os médicos.

Por Sofia Baptista

Que nunca eu esqueça – mesmo nos dias em que a rotina mais pesa – que quando me escolho como médico, de alguma, forma, faço uma escolha por todos os médicos.

[1] F Kafka. A Metamorfose.
[2] JP Sartre. O existencialismo é um humanismo.

Histórias reais ficcionadas.

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