Pergunta clínica: Qual a eficácia da vacina bivalente contra o vírus do papiloma humano (HPV) na prevenção do cancro invasivo do colo do útero?
Contexto: A infeção por HPV de alto risco (tipos 16 e 18) está associada ao desenvolvimento de cancro do colo do útero. Na Europa, estão aprovadas vacinas (bivalente, quadrivalente e nonavalente) que reduzem significativamente a incidência de doença pré-invasiva e invasiva.
Desenho do estudo: Estudo observacional de base populacional (coorte prospetivo). Foram avaliados dados de mulheres nascidas entre 1988 e 1996, com base no programa escocês de rastreio do cancro do colo do útero. Os dados foram correlacionados com dados do registo nacional de cancro, dados de imunização e dados de carência de recursos através do Scottish Index of Multiple Deprivation (SIMD) que inclui dados de rendimento, empregabilidade, educação, saúde, acesso a serviços, crime e habitação. A incidência de cancro invasivo do colo do útero por 100 000 pessoas-ano e a eficácia da vacina bivalente na sua prevenção foram correlacionados com o status de vacinação, a idade de vacinação e o grau de carência de recursos.
Resultados: Foram analisados dados de 447.845 mulheres, das quais 239 tinham desenvolvido cancro invasivo do colo do útero. Não foram registados quaisquer casos de cancro invasivo do colo do útero em mulheres adultas imunizadas aos 12 ou 13 anos de idade, independentemente do número de doses da vacina administradas. Mulheres vacinadas entre os 14 e os 22 anos de idade com 3 doses da vacina bivalente apresentaram uma redução significativa da incidência de cancro invasivo do colo do útero quando comparadas com todas as mulheres não vacinadas – principalmente mulheres adultas que não receberam imunização de resgate (3,2/100.000 vs 8,4/100.000). A imunização parcial em crianças com 14 ou mais anos foi ineficaz na prevenção (40,0%). Apesar da incidência de cancro invasivo do colo do útero ter sido maior em mulheres de regiões mais carenciadas (10,1/100.000 vs 3,9/100.000), estas apresentaram uma redução significativa da incidência da neoplasia após 3 doses da vacina (13,1/100.000 vs 2,29/100.000).
Comentário: Este estudo avaliou a eficácia no “mundo real” da vacina bivalente contra o HPV. Os resultados parecem confirmar que esta é eficaz a prevenir o desenvolvimento de cancro invasivo do colo do útero, especialmente se administrada aos 12-13 anos de idade, independentemente do número de doses. Em idades mais avançadas, a imunização parcial pareceu ser ineficaz, pelo que 3 doses são necessárias para uma significativa eficácia vacinal. Mulheres de um estrato socioeconómico mais baixo pareceram beneficiar mais da vacinação do que aquelas de estratos mais elevados. Em Portugal, já se encontra disponível a vacina nonavalente, sendo que o programa nacional de vacinação foi já alargado aos rapazes. Importa reforçar junto dos nossos utentes a importância da vacinação na idade estipulada, sendo que devemos estar particularmente atentos àqueles que são os grupos de risco.
Artigo original: J Natl Cancer Inst
Por Jorge Talhada de Moura, USF Porto Centro
