Diagnóstico de gonorreia: será melhor serem as utentes a colherem as amostras?

Por Sofia Pinto, USF S. João

 

Pergunta clínica: para o diagnóstico de gonorreia em mulheres assintomáticas será melhor a colheita de amostra vulvovaginal pela própria utente do que pelo médico?

Desenho do estudo: Estudo prospectivo. Objectivo: comparar a eficácia diagnóstica entre amostras colhidas pela utente e pelo clínico, utilizando o teste de amplificação de ácido nucleico e o exame cultural. Incluiu mulheres, a partir dos 16 anos, que recorreram a uma Clínica de Saúde Sexual em contexto urbano, no Reino Unido, com o intuito de avaliação de infecção de transmissão sexual, entre Março de 2009 e Janeiro de 2010.

Critérios de inclusão:  consentimento para a colheita, pela própria utente, de um esfregaço vulvovaginal, após instrução verbal e escrita, antes da avaliação médica, na qual se procedeu à colheita de amostras uretrais e endocervicais, pelos clínicos. As amostras vulvovaginais e endocervicais foram submetidas ao teste de amplificação de ácido nucleico. Todos os resultados positivos foram confirmados com um segundo teste de amplificação de ácido nucleico. As amostras uretrais e endocervicais foram submetidas a exame cultural.

Critérios de exclusão:  mulheres que não consentissem ou fossem incapazes de realizar os exames referidos e aquelas que tivessem sido medicadas com antibótico nos 28 dias anteriores à avaliação. Considerou-se infecção por Neisseria gonorrhoeae se a cultura fosse positiva para o agente, com confirmação bioquímica, e/ou se o teste de amplificação de ácido nucleico da amostra vulvovaginal ou endocervical fosse positivo.

 

Resultados: O teste de amplificação de ácido nucleico é significativamente mais sensível que o exame cultural (99% e 81% respectivamente), não sendo no entanto significativa a diferença entre as amostras vulvovaginais e endocervicais submetidas ao teste de amplificação de ácido nucleico. Foi comparada a sensibilidade do teste de amplificação de ácido nucleico entre as mulheres com sintomatologia sugestiva de infecção bacteriana e as mulheres assintomáticas. Verificou-se que nas mulheres assintomáticas a sensibilidade deste teste nas amostras endocervicais era inferior em relação às amostras vulvovaginais (diferença significativa). Apesar da especificidade do teste de amplificação de ácido nucleico ser superior a 99%, perante um resultado positivo, este deve ser confirmado com um segundo teste em países de baixa prevalência, para evitar falsos positivos.

 

Conclusão: O melhor exame para diagnóstico de gonorreia, em mulheres assintomáticas, é o teste de amplificação de ácido nucleico de uma amostra vulvovaginal, colhida pela utente. A cultura considera-se útil perante a existência de resistência do agente a antimicrobianos, permitindo a realização do teste de sensibilidade.

 

Comentário: A colheita de amostra vulvovaginal pela própria utente é pouco invasiva e de fácil aplicação. Tendo em conta que mais de 70% das infecções nas mulheres, por clamídia, são assintomáticas, das quais algumas culminam em infertilidade, o conhecimento da prevalência da clamídia e gonorreia em Portugal permitiria avaliar a necessidade de implementação de rastreio destas infecções e a utilidade destes testes nesse contexto.

 

                                                                                                                                 Artigo original 

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