Glicemia e risco de demência

Por André P. Lourenço, USF Modivas


Pergunta clínica: níveis elevados de glicose aumentam o risco de demência em indivíduos sem diabetes?

Desenho do Estudo: Estudo de coorte prospectivo longitudinal, onde foram realizadas 35.264 medições de níveis de glicemia e 10.208 medições de hemoglobina glicosilada em 2067 indivíduos participantes sem demência, com o intuito de examinar a relação entre níveis de glicemia e o risco de demência. Todos os participantes eram participantes do estudo “Adult Changes in Thought”, incluindo 839 homens e 1228 mulheres com uma média de idade de 76 anos. Destes, 232 tinham já o diagnóstico de diabetes e 1835 não. Foram usados modelos de regressão de Cox, estratificados de acordo com o status de diabetes, e ajustados para a idade, sexo, coorte do estudo, nível de atividade física, tensão arterial e status relativamente à presença ou não de doenças coronária ou cerebrovascular, fibrilação arterial, hábitos tabágicos e realização de terapêutica anti-hipertensora.

Resultados: durante um follow-up médio de 6.8 anos, verificou-se o desenvolvimento de demência em  524 participantes (74 diabéticos e 450 não-diabéticos). Entre os não-diabéticos, os níveis elevados de glicemia nos últimos cinco anos foram relacionados a um aumento do risco de demência (P=0.01); para um nível de glicemia de 115 mg/dl (6,4 mmol/l) comparativamente a 100 mg/dl (5,5 mmol/l), o hazard ratio ajustado para demência foi de 1.18 (intervalo de confiança de 95%, 1,04 a 1,33). No subgrupo dos diabéticos, níveis de glicemia mais elevados mostraram-se igualmente relacionados com um risco aumentado de demência (P=0,002); com um nível de glicemia de 190 mg/dl (10,5 mmol/l), comparativamente com um valor de 160 mg/dl (8,9 mmol/l), o hazard ratio ajustado foi de 1,40 (intervalo de confiança de 95%, 1,12 a 1,76).

Conclusão: os resultados obtidos sugerem que os níveis mais elevados de glicemia podem ser um fator de risco para o desenvolvimento de demência, mesmo em indivíduos não-diabéticos.

Comentário: A maioria dos estudos anteriores que investigaram a associação entre o metabolismo da glicose e o risco de demência incidiram sobre a diabetes em si mesma, tendo produzido resultados inconsistentes. Muitos desses estudos mostraram a existência de uma relação positiva entre os níveis elevados de hemoglobina glicosilada ou glicose pós-prandial (mas não em jejum) e alterações relacionadas com demência. No entanto, nenhum outro avaliou os níveis de glicose como um fenómeno variável no tempo. Neste estudo prospectivo recorreu-se a um modelo que permitiu avaliar o risco de demência ao longo do tempo, num amplo espectro de níveis de glicose observados. Este método permitiu encontrar uma associação linear e crescente entre o nível de glicemia e o risco de demência entre pessoas com e sem diabetes. Estes dados sugerem que, qualquer aumento gradual nos valores de glicose está associado com um acréscimo do risco de demência, sendo necessária a adopção de medidas preventivas precoces com vista à redução dos níveis sanguíneos de glicose. Contudo, permanecem desconhecidos os mecanismos patogénicos subjacentes a esta associação, aspecto esse que deverá ter uma atenção preferencial em estudos futuros.

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