
Pergunta clínica: Quais os valores alvo de glicemia associados a menor risco de demência em idosos com diabetes tipo 2?
Desenho do estudo: Estudo coorte retrospetivo com base nos registos de seguimento dos pacientes do Kaiser Permanente Northern California com o diagnóstico de diabetes tipo 2.
Resultados: Foram identificados 253.211 adultos com diabetes tipo 2 com pelo menos 50 anos de idade que tivessem 2 medições de HbA1c e pelo menos 3 anos de seguimento, sem história de demência nos antecedentes pessoais. Foram agrupados em 6 grupos de acordo com os valores de HbA1c (<6%; 6% a <7%; 7% a <8%; 8% a <9%; 9% a <10%; 10% ou superior). A idade média dos participantes foi 61.5 anos e 53.1% eram do sexo masculino. Obtiveram-se 4.6 milhões de determinações de HbA1c e um seguimento médio de 5.9 anos.
No período analisado 39.266 participantes (15.5%) faleceram e 21.139 (8.9%) tiveram o diagnóstico de demência. Os participantes com mais de 50% de medições de HbA1c de 9% a < 10% ou 10% ou superior apresentaram maior risco de demência comparativamente com aqueles que tiveram 50% ou menos de medições nessas categorias (HbA1c de 9% a <10%: taxa de risco ajustada [aHR]: 1,31; HbA1c≥10%: aHR, 1,74). Por outro lado, os participantes com mais de 50% medições de HbA1c inferiores a 6%, 6% a <7% ou 7% a <8% tiveram menor risco de demência associado.
Conclusão: Nesta grande coorte de base populacional, os pacientes com diabetes tipo 2 cujo controlo glicémico cumulativo era superior a 9% apresentaram um risco acrescido de desenvolver demência.
Comentário: Apesar dos diferentes fatores que podem condicionar o desenvolvimento de demência para além dos valores de HbA1c, neste estudo é possível observar que o risco de demência é maior em adultos com concentrações cumulativas de HbA1c de 9% ou superiores. Os resultados deste estudo apoiam também a recomendação da Choosing Wisely Canada no sentido de se evitar a utilização de medicamentos com o potencial de causarem hipoglicemia para atingir uma hemoglobina A1c <7,5% em pacientes com 65 anos ou mais, considerando que um controlo moderado é geralmente melhor do que controlo estrito. Além disso, este estudo reforça a importância de um bom controlo metabólico não só pelo risco cardiovascular inerente, mas também pela sua relação com o desenvolvimento de demência.
Por Ana Catarina Afonso
