Hipertensão: diferentes tipos, diferentes doenças cardiovasculares

 

Pergunta clínica: os diferentes tipos de hipertensão arterial (diastólica vs sistólica) originam diferentes tipos de doença cardiovascular?

Enquadramento:

Em 2010, a pressão arterial foi considerada o principal fator de risco cardiovascular. A redução da mortalidade é responsável pelo aumento do número de indivíduos com comorbilidades cardiovasculares, entre outras. É necessária uma avaliação da relação da pressão arterial com as várias doenças cardiovasculares, fatais e não fatais, de modo a definir estratégias nos Cuidados de Saúde Primários.

Desenho do estudo:

O presente estudo procurou determinar qual a associação da pressão arterial com a incidência de doença cardiovascular.

Através da base de dados CALIBER (Cardiovascular research using Linked Bespoke studies and Electronic health Records) foram selecionados 1.25 milhões de utentes. A mediana do tempo de follow up foi 5.2 anos. Os indivíduos selecionados não tinham nenhuma doença cardiovascular prévia e tinham 30 ou mais anos, sendo que metade tomava terapêutica anti-hipertensora. Foram analisadas as associações entre pressão arterial, idade (entre 30-59, 60-79 e ≥ 80 anos), número de Dailys perdidos e doenças cardiovasculares crónicas, nomeadamente angina estável e instável, enfarte do miocárdio, morte por doença coronária, insuficiência cardíaca, morte súbita, acidente isquémica transitório, acidente vascular cerebral isquémico, hemorragia subaracnoidea, hemorragia intracerebral, doença arterial periférica e aneurisma da aorta abdominal.

Resultados:

Durante o tempo do estudo, registaram-se 83 098 eventos cardiovasculares de novo. Em todos os grupos, os indivíduos que tinham menor risco cardiovascular apresentavam pressão arterial sistólica (PAS) entre 90 e 114 mmHg e pressão arterial diastólica(PAD) variável, entre 60-74 mmHg. A PAS elevada estava relacionada sobretudo com novos eventos de hemorragia intracerebral, hemorragia subaracnoide e angina estável.

Comparativamente com a PAD, a PAS superior a 140 mmHg era responsável pelo maior risco de angina, enfarte do miocárdio e doença arterial periférica. Os indivíduos com PAD elevada apresentavam maior risco de aneurisma da aorta abdominal. Os indivíduos com HTA (≥140/90mmHg ou com terapêutica anti-hipertensora) tinham um risco de doença cardiovascular aos 30 anos de 63.3%, comparados com os indivíduos normotensos (risco de 46.1%), tendo desenvolvido doenças cardiovascular 5 anos antes destes. Os doentes com  angina estável e instável apresentaram maior número de Dailys perdidos (43%) aos 30 anos, sendo que, o grupo que tinha 80 ou mais anos com insuficiência cardíaca e angina estável apresentaram 19% de Dailys perdidos.

Conclusão e comentário:

Este estudo demonstra que existe uma elevada heterogeneidade de doenças cardiovasculares nos três grupos etários estudados. Contudo, para quase todas as doenças estudadas, observou-se uma diminuição do risco cardiovascular na redução da pressão arterial sistólica e diastólica. A introdução de indivíduos acima dos 30 anos permitiu concluir o benefício do tratamento anti-hipertensor, mesmo nos indivíduos mais jovens com HTA estadio 1, sem evidência de lesão de órgão alvo ou risco cardiovascular baixo a 10 anos devido ao aumento de morbilidade nestes indivíduos hipertensos.

A salientar algumas das principais conclusões deste estudo:

– A pressão sistólica está fortemente relacionada com eventos de hemorragia intracerebral, hemorragia subaracnóideia e angina estável, mas tinha apenas uma fraca associação com aneurisma da aorta abdominal.

– A pressão diastólica está fortemente associada ao risco de aneurisma da aorta abdominal, mas é pior preditor do que a pressão sistólica para as restantes doenças cardiovasculares.

– Quanto maior a diferença entre a sistólica e a diastólica, maior é o risco de doença arterial periférica, mas menor é o risco de aneurisma da aorta abdominal.

– Este estudo não confirmou a curva em J verificada em estudos anteriores, em que valores mais baixos da pressão arterial se associavam com um maior risco de doença cardiovascular. Pelo contrário, neste estudo, as pessoas que apresentavam os valores mais baixos de pressão arterial, foram as pessoas que estiveram mais protegidas.

Artigo original

Por Ana Correia de Oliveira, USF São João Porto

 

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