Pergunta clínica: Será a intervenção psicossocial em crianças de risco eficaz na redução da psicopatologia e do crime, e no aumento do bem-estar e da felicidade na vida adulta?
Desenho do estudo: Estudo controlado randomizado. Os investigadores selecionaram estabelecimentos de ensino de 4 áreas geográficas dos Estados Unidos da América com altos índices de criminalidade e pobreza (N = 55). Do total de crianças com 5 anos de idade (N = 9594), foram identificadas as que exibiam problemas de comportamento: 891 crianças foram consideradas de alto risco. Este grupo foi aleatoriamente dividido em dois: grupo com intervenção e grupo controlo. A intervenção psicossocial abordou, durante 10 anos, vários componentes do desenvolvimento psicológico e social das crianças e pais. Tinha como objetivos melhorar o auto-controlo, desenvolver competências sócio-cognitivas e capacitar para a resolução de problemas.
Resultados: Quando os participantes do programa completaram 25 anos, 702 (81% dos participantes vivos) concluíram a avaliação de acompanhamento. Os investigadores reviram registos do tribunal (N = 817, 92%), e realizaram entrevistas com os participantes e membros do grupo controlo, bem como com pessoas que conheciam os participantes. A intervenção provou ser benéfica para evitar psicopatologia e crime, com uma diminuição do risco de problemas psiquiátricos, processos criminais e comportamento sexual de alto risco aos 25 anos de idade (estimativa padronizada = -0,24), e menores taxas de parentalidade de risco. O grupo intervencionado também apresentou maiores médias nas medidas de bem-estar (estimativa padronizada = 0,19). A intervenção demonstrou ter o potencial de redução de custos para a sociedade.
Comentário: Este estudo reforça a importância que uma boa rede de apoio e cuidados tem no desenvolvimento saudável da criança até à idade adulta. As crianças consideradas de alto risco devem ser apoiadas de forma precoce e eficaz. O papel da equipa de Cuidados de Saúde Primários, em articulação com outros profissionais, é fundamental na sinalização e seguimento. Mas o sucesso será mais garantido se incluirmos toda a sociedade, pois, citando o provérbio africano “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”.
Artigo original: Am J Psychiatry
Por Sheila Maugi, USF Almonda
