
Somos médicos e, só por isso, devemos estar melhor preparados do que outros para receber más notícias, para lidar com situações de internamento de familiares próximos, para enfrentar as dificuldades e incertezas da doença e do seu tratamento. Devemos, porque (quase) toda a gente espera isso de nós, mas será que estamos mesmo?
Recentemente, vivi um período de internamento longo (1 mês para mim é longo) por doença da minha pequenota. Da incerteza entre a ausência de diagnóstico que explicasse o quadro até ao momento em que inicialmente foi colocado em cima da mesa o plano de tratamento correram apenas uns quatro dias. Quatro dias que se revelaram muito exigentes. Passou-me de tudo pela cabeça! Do mais grave ao mais subtil, indo sempre invariavelmente parar ao mais grave de novo. Quando me quiseram transmitir a notícia, pedi, no meio de uma urgência, que chamassem o meu marido para perto de mim. Sou médica, devia estar preparada, mas não estava até porque naquele momento eu não era médica, era mãe. Tinha medo, muito medo e ter um pilar ao meu lado era essencial.
As notícias não foram das mais tranquilizadoras, até porque o quadro era raro e a evidência científica não era muito robusta, mas a experiência da equipa que iria seguir o caso deu-me confiança. O contexto não era o adequado para colocar demasiadas questões, mas ainda assim o tempo que me foi dado para o esclarecimento foi muito importante. Havia ainda muita informação a processar (e muitas emoções para acalmar), por isso os dias seguintes foram determinantes.
Em regime de internamento, contactámos com profissionais de todos os tipos. Os que procuravam envolver-se, os que naturalmente se envolviam e os que não queriam dar demasiado de si (para se proteger, possivelmente). Superar os dias foi possível porque os que naturalmente se envolveram e os que procuraram envolver-se cuidaram no verdadeiro sentido da palavra. Mais do que antibióticos administrados, houve miminhos e sorrisos trocados e esses também faziam a diferença. Naquele quarto, ouviram-se muitos sorrisos, muitas histórias de encantar, muitas músicas animadas. E isso só pode ter ajudado.
Nos momentos em que as coisas pareciam estar a correr menos bem, valeram-nos aqueles que, compreendendo o cansaço acumulado e esquecendo a condição profissional, tiraram um pouco do seu tempo para rever, repensar e reexplicar a estratégia a quem todos os dias tentava dar o máximo de si para que a pequenota não deixasse de sorrir.
Somos médicos, mas somos pais e mães e, como qualquer pai ou mãe quando vê o seu filho menos bem, ficamos igualmente aflitos. Precisamos do mesmo espaço de escuta, do mesmo espaço de conforto, do mesmo espaço esclarecedor. O que nós precisamos também precisam certamente aqueles a quem, no desempenho da nossa profissão, temos que transmitir notícias menos positivas. Que estarmos do “lado de lá” sirva também para entendermos o que passam outros e que possamos ser para eles o que naquele momento eles mais precisam.
Maria João Xará, IFE MGF, USF Entre Margens
