Medo

 

 

 

O  medo é uma das emoções básicas da vida. Talvez a mais universal, aquela que todos já experimentaram, e dela tomaram consciência.

O medo é uma emoção tão básica à sobrevivência que todos os animais a sentem. A diferença é que nós, os humanos, temos a capacidade de elaborar mentalmente sobre o que sentimos. É essa elaboração mental que nos leva a recear o próprio medo.

Sendo uma emoção primária consegue, por vezes, ser paralisante, levando-nos a agir, não raras vezes, de forma instintiva.

Contudo, convém que consigamos controlar o medo  e sobretudo evitar dramatizar excessivamente, procurando interiorizar a sua utilidade enquanto mecanismo de protecção que nos ajuda a percepcionar riscos e perigos eminentes ou futuros.

Se perguntarmos a uma pessoa adulta qual é o seu maior medo, o mais provável é que nos responda que é o medo da morte.

Na verdade, embora a morte seja um “território” desconhecido e sobre o qual se adensam infindáveis dúvidas, paradoxalmente, é uma certeza universalmente adquirida, à qual ninguém escapará.

Quando exploramos um pouco mais esse medo, ele desagrega-se em múltiplos medos: o medo de sofrer, o medo de fazer sofrer os que amamos, o medo da saudade da vida, porque sabemos como ela é ou pode ser boa, e portanto, não é tanto a morte que receamos, nem o desconhecido, mas o sentimento de perda e sofrimento que lhe associamos.

Esta é uma emoção que a mim, como futura médica, me deixa intrigada, curiosa e, simultaneamente, receosa, por saber que vou acolher pessoas nas quais essa emoção vai estar à flor da pele.

Todos nós, quando vamos ao médico, mesmo que seja uma consulta de rotina ou para a qual não antecipamos um possível diagnóstico, temos o medo preparado para entrar em acção a qualquer momento. E se este já estiver a ser experimentado, podemos mesmo tentar não exteriorizá-lo ou verbalizá-lo, estando contudo à espera que, na consulta, o médico nos acalme e nos conforte, com a possibilidade da esperança, por mais ténue que ela seja.

Creio que para um Médico esse é um dos maiores constrangimentos humanos, porque esses doentes estarão sempre à espera de conforto, reacção adequada à expressão desse medo, ou até a leitura e percepção dele mesmo quando o doente não o verbaliza claramente e, por vezes, mais difícil ainda, à espera que sejamos fonte da esperança que tanto deseja.

Ainda enquanto estudante, há uma outra questão que vejo ser discutida nos grandes fóruns de debate científico onde se encontram os grandes pensadores da Medicina e, sobretudo, dos cuidados em saúde: os cuidados paliativos.

Pese embora a aparente fuga ao tema desta minha prosa, os cuidados paliativos surgem numa fase da vida, quando a doença de que uma pessoa padece se revela incurável e a sua vida entra num estado terminal. Portanto, não se trata de uma fuga, mas de uma variação ao tema principal porquanto a questão da gestão do medo da morte assume nesse momento contornos ainda mais complexos.

Assim o médico, nos cuidados paliativos, vive com pessoas nas quais o medo já está a ser experimentado e não apenas à espera para sair. O doente vive activamente o medo fundamental da vida ou aquilo que ele sabe ser um acontecimento inevitável e anunciado que irá ocorrer a curto prazo.

O grande dilema que se coloca à Medicina hoje, a meu ver, é perceber se o medo, nos doentes terminais, não deve ser uma emoção que tem de ser considerada e tratada como um dos principais cuidados paliativos a administrar. E será que devemos neste momento dar esperança de cura pelo medo ser a morte ou devemos dar qualidade de vida e apoio aos entes queridos, pelo medo de sofrimento pessoal e das pessoas que o doente ama? Eu, enquanto estudante, e mesmo pensando que poderei vir a ser eu a estar na posição do doente, não saberia o que escolheria… Escolheria enfrentar um dos medos, sem dúvida, mas qual? Qual é mais Humano eu enfrentar? Teria medo de decidir, porque conseguiria antecipar múltiplas consequências de cada decisão que pudesse tomar, no fundo, medo de ter medo…

Ana Lídia Rouxinol Sampaio Dias

 

 

 

 

 

MaisOpinião - Ana Lídia Dias
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