Ministro da Solidão

 

 

A esperança média de vida à nascença em Portugal é de 81,49 anos, para o triénio 2022-2024. Este valor é superior em relação ao triénio anterior, sendo estimado que continue a aumentar. Contudo, mais do que acrescentar anos à vida, importa continuar a construir uma vivência plena e com significado. Como médicos, como podemos auxiliar os nossos utentes neste sentido? Há vários determinantes já conhecidos para a construção de um envelhecimento saudável, como a alimentação, a atividade física, entre outros. Contudo, existe ainda um fator-chave para o envelhecimento não só funcional, mas feliz.

O Estudo de Harvard de Desenvolvimento de Adultos, iniciado em 1938, demonstrou que, mais do que as posses económicas, o valor de Q.I. ou a classe social, os principais preditores de um envelhecimento longo e feliz são a qualidade e a profundidade das relações interpessoais com familiares e amigos. Assim, o combate à solidão é um caminho direto para promover o envelhecimento saudável.

Este reconhecimento da solidão como determinante crítico do bem-estar começa a inspirar, em alguns países, respostas estruturadas e medidas governamentais especificamente orientadas para enfrentar este desafio.

Em janeiro de 2018, no Reino Unido, foi criado o cargo de secretário da solidão, com o propósito de assegurar que a redução deste fenómeno permanece uma prioridade na agenda parlamentar. Em outubro do mesmo ano, o governo britânico tornou-se o primeiro a publicar uma estratégia nacional de combate à solidão. Esta estratégia contemplava ações de nove departamentos governamentais, incluindo medidas para incentivar a prescrição social. Esta permitia que profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários encaminhassem os seus utentes para atividades de grupo e programas de convívio. Em maio de 2020, o governo já tinha distribuído mais de 20 milhões de libras para diversas iniciativas destinadas a mitigar a solidão, financiando instituições de solidariedade e grupos comunitários empenhados neste combate.

Em fevereiro de 2021, o Primeiro-Ministro do Japão criou igualmente um cargo governamental com a missão de aliviar o isolamento social, instituindo oficialmente o posto de Ministro da Solidão. A principal tarefa desta função consiste em promover a reintegração social dos cidadãos isolados, fomentando o seu regresso à vida comunitária.

 

O antídoto contra a solidão será uma receita, mas não farmacológica.

 

Assim, importa questionar o papel dos profissionais de saúde neste contexto. Quando confrontados com desafios sociais e emocionais com impacto profundo no bem-estar dos utentes, as abordagens exclusivamente clínicas revelam-se muitas vezes insuficientes. É neste enquadramento que surge a prescrição social, uma estratégia integrada de cuidados que visa aproximar os utentes dos recursos de apoio disponíveis na comunidade. Em Portugal, a implementação da prescrição social iniciou-se em 2018, através de um projeto-piloto desenvolvido em Unidades de Saúde Familiar em Lisboa. As estratégias desenvolvidas envolvem a promoção de estilos de vida saudáveis e o contacto com a natureza, através da organização de caminhadas e eventos de jardinagem, o desenvolvimento pessoal e profissional, com a promoção de formações e projetos de voluntariado, a participação cultural, entre outras.

Embora as iniciativas governamentais que visam inverter a tendência alarmante de aumento da solidão sejam meritórias, uma solução sustentável e eficaz para um problema tão profundamente enraizado exige um esforço multidisciplinar. É indispensável uma colaboração estreita entre decisores políticos, profissionais de saúde e comunidade, promovendo espaços de encontro, partilha e inclusão social. Assim, urge repensar o desenho urbano das nossas localidades, priorizando a criação e/ou ampliação de espaços de encontro, designadamente espaços verdes, pavilhões desportivos e espaços culturais, como museus e salas de espetáculos. Aliada a esta estrutura, é benéfica a criação, por parte das autarquias, de atividades que envolvam a comunidade com lugar nestes espaços, e a sua adequada divulgação. Por fim, impõe-se a articulação direta com os profissionais de saúde, nomeadamente com os Médicos de Família, para que tenham conhecimento destas iniciativas e possam encaminhar os seus utentes, de forma personalizada, para a(s) que lhes for(em) mais benéfica(s). O antídoto contra a solidão será uma receita, mas não farmacológica. Prescrever a participação comunitária é o gesto mais necessário no combate contra a solidão.

A cooperação multidisciplinar poderá impulsionar o desenvolvimento conjunto de respostas ajustadas às necessidades dos cidadãos, contribuindo para a centralidade dos cuidados de saúde na pessoa e para um envelhecimento mais ativo, saudável e feliz.

Por Ana Beatriz Silva, USF Carvalhido, ULS Santo António

 

 

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