Por Raquel Diz, UCSP Santa Maria II
Enquadramento: Os sintomas somatoformes são queixas físicas não explicadas por doença orgânica e que motivam a procura por cuidados de saúde, independentemente de fazerem parte de síndromes funcionais ou de outras perturbações psicopatológicas. Cerca de 80% dos casos tem remissão completa e os restantes 20% evoluem para a cronicidade, levando à hiperutilização dos serviços de saúde.
Objetivo: Avaliar a proporção de pacientes com queixas somatoformes em medicina geral e familiar de uma unidade de saúde familiar urbana e conhecer a sua evolução 6 meses após a consulta inicial.
Desenho do estudo: Durante uma semana, 8 médicos identificaram os pacientes que consultaram e que apresentaram queixas físicas para as quais não previam uma justificação orgânica. Estes doentes foram reavaliados 6 meses depois quanto à evolução dos seus sintomas.
Resultados: Em 864 consultas, 73 (8%) pacientes apresentaram queixas físicas para as quais não havia previsão de explicação orgânica, 71% eram do género feminino e 29% do género masculino, não se encontrando diferenças estatisticamente significativas quanto à idade e ao género. Quanto ao estado civil, o mais frequente foi casado (63%), seguido por 15% de solteiros, 14% divorciados e 7% viúvos. A maioria dos pacientes com sintomas somatoformes (67%) tinha 3 ou menos sintomas e 34% tinham mais de 3 sintomas. Os sintomas mais frequentes foram, por ordem decrescente, a fadiga e a dor de cabeça em 42% dos pacientes, seguido de dores nas costas (32%) e insónia (26%). O exame físico foi efetuado em 66% dos casos e para 33% dos pacientes foram prescritos um ou mais medicamentos. Os exames complementares de diagnóstico foram requisitados a 60% dos pacientes, enquanto que a referenciação a outros serviços de saúde ocorreu em 32% dos pacientes. Estes tinham maior probabilidade de terem depressão, ansiedade, cefaleias de tensão e síndrome do cólon irritável, relativamente aos doentes sem sintomas somatoformes. Após 6 meses, apenas em 3 pacientes, foi identificada uma doença orgânica e 21 (33%) mantiveram-se com sintomas inalterados ou agravados.
Conclusão: Os pacientes com sintomas físicos sem doença orgânica são frequentes nas consultas de medicina familiar. A maioria dos pacientes (87%) tem uma explicação para os seus sintomas ou para os medos a eles associados, sendo estes fatores determinantes na procura de cuidados. A maioria evolui para remissão completa e o clínico tem uma pequena probabilidade de omitir um diagnóstico orgânico.
Comentário: Os pacientes com sintomas somatoformes sentem-se frequentemente frustrados com os médicos de família e utilizam consultas médicas de forma desproporcionada. Por outro lado, as queixas não permitem aos médicos identificar um diagnóstico objectivo, despertando nestes, sentimentos de desconforto, sensação de frustração ou mesmo irritação e muitos não sabem o que fazer nestas consultas. Uma relação de confiança médico-doente pode permitir ao último aceitar permanecer mais tempo sem diagnóstico e o médico de família pode desempenhar um papel decisivo na gestão da incerteza associada aos sintomas somatoformes.
