Estórias do consultório I: “O bem é para quem o faz”

 

 

Só era médico há uns meses e ainda sem autonomia outorgada. Era-me mais fácil passar uma receita do que ficar a sós com os doentes, naquele espaço onde as dúvidas deles e a minha insegurança se uniam simbioticamente para me activar o sistema nervoso simpático. No momento em que a minha tutora se afastou para fazer algo que não recordo, aquele homem anafado, a forçar os botões da camisa branca, de sorriso simples e com telangiectasias “de livro” nas faces, sentado na borda da cadeira, decidiu, num volte-face tácito, aplacar o aumento da minha frequência cardíaca e o suor que emergia das palmas das minhas mãos.

– Ó doutor, a propósito do que estávamos a dizer, é mesmo assim…o bem é para quem o faz, não acha? Vou contar-lhe uma história:

Um mendigo foi certo dia pedir algo para comer a uma casa abastada. Uma mulher veio à porta e, apesar de se mostrar algo afectada por aquele incómodo, acedeu e entregou-lhe algum pão. O mendigo respondeu:
– Senhora, tenha um bom dia…o bem é para quem o faz!
Aquele remate de conversa desconcertou a mulher. O pedido do mendigo, a vinda da mesma mulher à porta, a entrega do pão e também as palavras de despedida do mendigo repetiram-se dia após dia. Até que a mulher, sentido como inaceitáveis e prova até de ingratidão aquelas palavras do homem, lhe entregou pão com veneno. [Acreditemos que não era dos venenos que matam, apenas daqueles capazes de dar uma lição, como, concordamos, estava a tornar-se necessária.] Nesse dia, daquela tal casa abastada, saiu um grupo de amigos para a caça. Sucede que, incautos e não conhecendo bem aquelas matas, quando começou a anoitecer, os amigos viram-se obrigados a esperar pelo nascer do dia para regressar a casa. Famintos, viram o mendigo e imploraram que lhes desse algo para comer. Ora, o homem entregou-lhes de imediato o que havia recebido da casa de onde saíra o grupo.

– O bem é para quem o faz! – repetiu, com tom de quem conta uma máxima.

Lembro-me que forcei um sorriso sem perceber bem o propósito desta história que mais me pareceu na altura um cruzamento entre parábola e lenda. Certo é que me ficou na memória todos estes anos. E recordo-a agora nesta curva da estrada, a caminho do drive thru para fazer o tal teste ao tal vírus. Dentro de alguns minutos terei um objecto estranho a forçar a entrada para lá das minhas narinas. Desejem-me sorte.
[Sim, até que esta lenda-parábola tem algo que ver com a pandemia. Neste momento espera-se o contributo de quem lê. É que não existem histórias per se, as histórias são-no com o leitor. ]

Histórias reais ficcionadas.
Por Sofia Baptista

 

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Adorei 🙂 Parabéns, Sofia

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