O desenvolvimento de alergia ao ovo não é afetado pela ingestão materna de ovos durante o período neonatal

 

 

Pergunta clínica: Em recém-nascidos considerados de alto risco para o desenvolvimento de alergias alimentares, a ingestão materna de ovos durante o período neonatal precoce aumenta o risco de desenvolvimento de alergia ao ovo?

População: Mães e recém-nascidos considerados de alto risco para o desenvolvimento de alergias alimentares, em particular aqueles com pelo menos um dos progenitores diagnosticado com doença alérgica (pelo menos uma das seguintes: dermatite atópica, asma brônquica, alergia alimentar, rinite alérgica e conjuntivite alérgica). Essa condição foi identificada pelos autores como fator de risco para o desenvolvimento de alergia alimentar em recém-nascidos.
Intervenção: Ingestão materna de um ovo inteiro cozido por dia nos primeiros 5 dias de vida do recém-nascido no grupo de tratamento.
Comparação: Dieta com restrição de ovos pelas mães do grupo de controlo, nos primeiros 5 dias de vida do recém-nascido.
Outcome (primário): Alergia ao ovo aos 12 meses nos lactentes, definida como sensibilização à clara de ovo ou ao ovomucóide.

Desenho do estudo: Ensaio clínico randomizado, multicêntrico e simples-cego, realizado em 10 hospitais no Japão no período de 18 de dezembro de 2017 a 31 de maio de 2021. O estudo incluiu um total de 414 recém-nascidos, dos quais 34 foram excluídos de acordo com os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos. Foram excluídos recém-nascidos cujas mães apresentavam alergia ao ovo, aqueles que não receberam leite materno nos primeiros dois dias de vida, assim como recém-nascidos com menos de 37 semanas de gestação e peso inferior a 2300g. A alocação dos 380 recém-nascidos (198 do sexo feminino e 182 do sexo masculino) para os grupos de tratamento e controlo foi realizada de forma aleatória, sendo que as mães dos lactentes do grupo de intervenção receberam uma dieta que incluía 1 ovo inteiro por dia ao pequeno-almoço nos primeiros 5 dias pós-parto (n =190), enquanto as mães dos lactentes no grupo de controlo seguiram uma dieta com restrição de ovos durante o mesmo período (n =190). Após o 5º dia de vida dos recém-nascidos, nenhum dos grupos foi submetido a restrições alimentares maternas. De acordo com os autores, todas as mães que participaram no estudo forneceram o seu consentimento informado.

Resultados: Dos 380 recém-nascidos inicialmente incluídos, 367 foram acompanhados ao longo do primeiro ano de vida, nomeadamente 183 do grupo de tratamento e 184 do grupo de controlo. Nos terceiro e quarto dias pós-parto, observou-se uma proporção superior de albumina e ovomucóide no leite materno do grupo de tratamento em comparação com o grupo de controlo (ovoalbumina: 10.7% vs 2,0%; ovomucóide 11,3% vs 2,0%). Aos 12 meses, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas na ocorrência de alergia ao ovo entre os recém-nascidos dos grupos de tratamento e controlo (9,3% vs 7,6%). Além disso, não foram observadas diferenças significativas na sensibilização à clara de ovo (62,8% vs 58,7%). Importa salientar que durante o estudo não foram descritos quaisquer efeitos adversos.

Comentário: Sabe-se que a alergia ao ovo tem vindo a aumentar, atingindo cerca de 10% das crianças, sendo o ovo um dos alimentos mais frequentemente associados a alergias alimentares, inclusive à anafilaxia. Um estudo de 2019, intitulado ABC (Atopy Induced by Breastfeeding or Cow’s Milk Formula), revelou que a ingestão de leite de fórmula com proteína de leite de vaca nos primeiros 3 dias de vida aumentou o risco de alergia ao leite. Assim, o presente estudo surgiu com o propósito de averiguar se a ingestão precoce de ovo por parte da mãe, nos primeiros 5 dias de vida do recém-nascido, poderia desempenhar um papel de imunoterapia oral na prevenção da alergia ao ovo pelos recém-nascidos, baseando-se nos resultados promissores de estudos de imunoterapia oral, onde a ingestão de pequenas quantidades de proteína de ovo demonstrou induzir tolerância, reduzindo os sintomas alérgicos.
No âmbito deste ensaio clínico randomizado, foi possível verificar que o desenvolvimento de alergia ao ovo e a sensibilização ao ovo não foram afetados pela ingestão materna de ovos durante o período neonatal precoce (0-5 dias). Assim, não foi possível confirmar a hipótese de que a ingestão materna precoce de ovo iria prevenir a alergia alimentar ao ovo em lactentes aos 12 meses. Contudo, é importante salientar que a ingestão materna de maiores quantidades de proteína de ovo ou um período de intervenção mais prolongado poderiam produzir resultados distintos, destacando a necessidade de mais estudos nesta área.

Artigo original: JAMA Network Open

Por Pedro Alexandre Ribeiro, USF Penela

 

 

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