
A liderança transcende a hierarquia: o poder sem autoridade não mobiliza; a autoridade sim é mobilizadora, mas esta emerge do caráter, da competência e do compromisso do líder com as suas pessoas.
O exercício da liderança nos sistemas de saúde tem sido um tema da atualidade e que merece uma reflexão profunda. Ser um líder na saúde exige um perfil que combina competências técnicas, integridade moral e um profundo sentido do propósito organizacional. À semelhança de outras áreas, um dos primeiros desafios do líder no setor da saúde começa pelo autoconhecimento, pois o primeiro governo começa no próprio e a transformação pessoal pode ser o primeiro passo para conseguir uma transformação organizacional.
Entre as características essenciais de um líder, destaco a capacidade de conciliar estratégia e humanidade. Deve ser estratega, ao ser capaz de detetar oportunidades e projetar a sua operacionalização; gestor, ao potenciar o desenvolvimento dos colaboradores para que queiram e possam fazer cada vez melhor o seu trabalho; e, acima de tudo, líder, no sentido mais nobre do cargo, dando um sentido ao trabalho diário das equipas e servindo de exemplo em integridade, coerência e resiliência.
O líder nos sistemas de saúde enfrenta desafios muito próprios, como a gestão de equipas sob elevado stress diário e a pressão para resultados. Para responder a isso, é necessário criar um ambiente de confiança, onde os profissionais se sintam seguros para expressar ideias, lidar com dificuldades e motivados para colaborar. Este ambiente de segurança psicológica promove um maior alinhamento com a missão das equipas e impulsiona o desempenho coletivo e colaborativo.
A liderança na saúde requer também a capacidade de motivar pessoas e mobilizar equipas. Inspirar por modelo e mostrar o sentido para alcançar um propósito claro galvaniza as equipas para superar desafios complexos. Importa entender que a liderança transcende a hierarquia: o poder sem autoridade não mobiliza; a autoridade sim é mobilizadora, mas esta emerge do caráter, da competência e do compromisso do líder com as suas pessoas. E todas as pessoas importam. É certo que os doentes estão, na maioria das situações, numa condição de maior fragilidade, mas a dignidade é a mesma dos profissionais de saúde que lhes prestam cuidados e por isso a liderança tem de atender ao bem-estar de todos.
Apesar de não existir um perfil ideal de líder que se possa generalizar, algo que também depende de circunstâncias específicas, e um líder no setor da saúde precisa de combinar visão estratégica, humanidade e habilidade para mobilizar equipas no sentido de um propósito maior, que nos deve mover a todos: proporcionar os melhores cuidados aos nossos pacientes. Ao líder na saúde não chega a competência técnica para gerir com eficiência, precisa de ser também o primeiro a acreditar na missão da instituição de saúde, transformando o ambiente das organizações e criando um legado de confiança e excelência.
Por Cristiana Sousa, Médica de Família, USF Gualtar
(PG em Comunicação Empresarial pela PBS; PADIS pela AESE)
