Os 10 mandamentos da prescrição, segundo Richard Lehman

Joana Costa, IFE MGF, Usf das Conchas – Lumiar

Um artigo publicado no BMJ assinala que resultados orientados para a doença (surrogate outcomes) são frequentemente usados em ensaios clínicos, em vez de resultados orientados para o paciente, podendo mesmo prejudicar a prestação de cuidados. Foi com base neste artigo que Richard Lehman publicou aquilo que apelidou de “Os 10 mandamentos para a nova prescrição terapêutica”. O US Institute of Medicine definesurrogate outcomes como sendo um biomarcador que visa substituir os parâmetros clínicos e que poderá prever o benefício clínico (ou risco…) de determinada intervenção baseado em evidência epidemiológica, terapêutica, fisiopatológica ou outras”. Alguns exemplos desurrogate outcomes são a pressão arterial, valores de glicémia ou valores dos lípidos no sangue.

Segundo os autores do artigo, o uso destes marcadores  pode ter utilidade na prática clínica, nomeadamente na estratificação do risco, mas não deverão ser por si só um fim da prática clínica. O uso inadequado dos surrogate outcomes pode conduzir a interpretações erradas da evidência científica e pode mesmo produzir dano nos pacientes. Os autores dão vários exemplos do uso inadequado dos surrogate outcomes, nomeadamente da área da terapêutica da diabetes tipo 2 que descrevem ao longo do artigo.

Neste contexto, Richard Lehman delineou:

Os 10 mandamentos da prescrição terapêutica

1.     Tratarás de acordo com o nível de risco e não do nível do factor de risco.

2.     Tomarás cuidado aquando do acréscimo de novos fármacos em doentes polimedicados.

3.     Considerarás os benefícios dos fármacos comprovados apenas por estudos com resultados orientados para o paciente (hard endpoint).

4.     Não te submeterás aos resultados orientados para biomarcadores (surrogate endpoints), pois estes são apenas imagens fictícias.

5.     Não venerarás “objectivos terapêuticos”, pois estes resultam apenas de intervenções criativas de grupos de trabalho ou consenso.

6.     Juntarás uma pitada de sal às Reduções do Risco Relativo, independentemente dos valores do p, pois a população da qual eles provêm pode não se adequar à tua.

7.     Honrarás os Números Necessários para Tratar, pois neles residem as pistas para a informação relevante do paciente e para os custos do tratamento.

8.     Não te encontrarás com delegados de informação médica, nem cobiçarás Congressos em cenários de luxo.

9.     Partilharás com o paciente as decisões sobre as opções de tratamento, com base numa estimativa do risco e do benefício individual.

10.   Honrarás os pacientes idosos pois, apesar de serem a população com maior nível de risco, também são os que mais sofrem com os malefícios de muitos tratamentos.

Artigo original

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