Uso de placebos no Reino Unido: resultados de um inquérito nacional a Médicos de Família

Por Vítor Cardoso, USF Gualtar

Pergunta clínica: Qual a frequência com que os Médicos de Família (MF) do Reino Unido prescrevem placebos e em que situações a consideram ética?

Desenho do estudo: Estudo observacional e transversal, baseado num questionário distribuído por correio eletrónico em Abril de 2012 a uma amostra de MF no Reino Unido. Foram enviados dois lembretes e os dados colhidos 4 semanas depois. Placebos “impuros” foram considerados fármacos com clara eficácia para certas situações, mas prescritos para doenças onde a sua eficácia é desconhecida, como antibióticos para infeções virais. Os placebos “puros” consistem em pílulas de açúcar ou injeções de solução salina sem atividade farmacológica ativa.

Resultados: A taxa de adesão foi de 46% (783 questionários preenchidos de 1715 enviados). Doze por cento afirmaram ter prescrito placebos “puros”, enquanto 97% afirmaram ter prescrito placebos “impuros” pelo menos 1 vez na carreira. Na última semana, 1% dos MF respondeu ter prescrito placebos “puros” e 77% “impuros”, pelo menos uma vez. Dos “impuros” mais frequentemente usados constavam exames físicos desnecessários (54%), “sugestões positivas” (52%), exames complementares desnecessários (31%), medicina não baseada na evidência (26%) e antibióticos para prováveis infeções virais (25%). As razões de prescrição foram semelhantes entre os 2 tipos de placebos: possível efeito psicológico terapêutico (50%), requisição do paciente (45%), queixas inespecíficas (35%) e para tranquilizar os pacientes (32%). A maioria dos MF considerava a utilização de placebos ética em algumas circunstâncias (66% para os “puros” e 84% para os “impuros”). Porém, mais de 80% declarou que o uso de placebos era inaceitável quando os doentes eram enganados e/ou colocava em perigo a confiança médico-doente. Apenas em 8-9% dos casos, seria dito aos pacientes que o tratamento era um placebo.

Os autores concluem que apesar da utilização de placebos ser comum nos cuidados de saúde primários, permanecem várias questões sobre os seus benefícios, danos, custos e mesmo se a sua prescrição é “ética”.

Comentário: Estudos anteriores indicaram que 17%-80% dos médicos prescrevem ‘placebos’ na sua prática clinica diária. Neste estudo a taxa de adesão ao questionário (46%) dificulta a representatividade dos resultados. Por outro lado, o uso de placebos pode estar subestimado, dados os constrangimentos éticos que rodeiam esta prescrição.

A definição de placebo é complexa e muitas vezes confusa, constituindo uma barreira na investigação deste tema. Os resultados deste estudo são uma oportunidade à reflexão sobre a utilização de placebos na nossa prática clínica, que não são de todo desprovidos de efeitos. Os efeitos adversos, por exemplo, dos anti-inflamatórios ou dos antibióticos são sobejamente conhecidos. Adicionalmente, será útil refletir se a utilização de placebos não introduzirá “crenças erradas” nos pacientes, fomentando a automedicação e os riscos inerentes. É ainda clara a necessidade de mais estudos para perceber o efeito custo-eficácia dos placebos e a sua aceitabilidade ética. 

                                                                                                                                         Artigo original

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