Perda de memória: qual a história natural?

 

 

Pergunta clínica: Qual a história natural das queixas de memória referidas pelos idosos?

Enquadramento: As queixas subjectivas de memória poderão ser um reflexo da progressão para um estado clinicamente reconhecido de disfunção cognitiva, nomeadamente, de défice cognitivo moderado ou demência. Apesar dos vários estudos realizados que avaliam a progressão para demência, parece importante considerar também os efeitos dos problemas de memória auto-referidos na ocorrência de défice cognitivo moderado.

Desenho do estudo: Estudo longitudinal, prospectivo, com o intuito de avaliar a relação entre o envelhecimento e a cognição, que incluiu indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos, sem défice cognitivo conhecido, patologia médica incapacitante ou doença psiquiátrica, e que concordaram em ser submetidos a autópsia cerebral após a sua morte. Para além das avaliações realizadas inicialmente (baseline), os indivíduos foram submetidos a várias avaliações de memória, linguagem, funções motoras e visuo-espaciais em cada visita de follow-up, e  questionados relativamente ao aparecimento de novas queixas de memória desde a visita anterior.

Resultados: Foram incluídos 1100 indivíduos que, em média, tinham 73 anos de idade, eram do sexo feminino e tinham pelo menos 16 anos de escolaridade (aproximadamente 10% não tinham o ensino superior). Houve uma taxa de autópsia cerebral de aproximadamente 85% nos pacientes que faleceram durante o período de follow-up. As queixas de memória foram reportadas por 55,7% da coorte, e associaram-se a um risco aumentado de défice cognitivo (OR não ajustado = 2,8; p<0,001). Em média, quando um paciente desenvolvia uma disfunção cognitiva objectivada demorava, respectivamente, 9, 11 e 17 anos a atingir um défice cognitivo moderado, uma demência ou a morte. Os cérebros dos 176 pacientes com queixas de memória que faleceram sem um diagnóstico clínico de défice cognitivo apresentavam mais placas amilóides no neocórtex e nos lobos temporais médios do que os daqueles que não reportaram problemas de memória. Os pacientes com o alelo APOE-e4 tinham aproximadamente o dobro da probabilidade de serem diagnosticados com défice cognitivo vs. de morrerem. Daqueles que reportaram problemas de memória mas não foram diagnosticados com défice cognitivo, os que tinham o alelo APOE-e4 faleceram num período mais curto de tempo. Os pacientes que fumavam também demoravam menos tempo até começarem a reportar problemas de memória (aproximadamente 3 anos). Os fumadores activos progrediram mais rapidamente de défice cognitivo moderado para demência do que os não-fumadores (1 ano vs. 3 anos).

Conclusão: Nesta coorte de indivíduos com níveis de escolaridade elevados e sem défice cognitivo à data do início do estudo, as queixas de perda de memória associaram-se a um risco aumentado de disfunção/défice cognitivo. Daqueles com queixas de memória, 25% objectivaram défice cognitivo e aproximadamente 50% destes acabaram por desenvolver um síndrome demencial. Cerca de 14% dos que apresentaram problemas de memória mas que não mostraram evidência de défice cognitivo acabaram (também) por desenvolver um síndrome demencial.

Comentário: Este estudo permitiu conhecer melhor as circunstâncias do aparecimento das queixas de memória, e os eventos que lhe sucederam, numa coorte bem caracterizada de voluntários idosos. À semelhança de outros estudos, constatou-se que as queixas subjectivas de memória representaram um factor de risco para o desenvolvimento de défice cognitivo moderado ou demência. No entanto, ao contrário dos resultados já existentes que não abordavam a temporalidade entre os primeiros sintomas e o diagnóstico clínico, este estudo permitiu constatar que o intervalo que decorreu entre o aparecimento de queixas subjectivas de memória e o diagnóstico de disfunção cognitiva variou em função de vários factores de risco, sugerindo que as queixas subjectivas de memória poderão identificar uma oportunidade para intervir, antes da manifestação clínica de disfunção. Como principais limitações deste estudo, salienta-se que os autores não esclarecem se os avaliadores tinham conhecimento do estado de memória auto-reportado pelos pacientes. O estudo englobou ainda um plano analítico complexo, e por isso mais sujeito a erros e viéses, dado que alguns pacientes com queixas de memórias auto-reportadas não apresentaram alterações objectivas nos exames aplicados, e alguns pacientes com défice cognitivo não tinham percepção do mesmo. Adicionalmente, alguns pacientes provavelmente faleceram antes de desenvolverem demência e vice-versa.

Artigo original: Neurology

Por Ana Mafalda Macedo, USF Prelada

 

 

 

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