Por Ângelo Costa, UCSP Fernão de Magalhães
Pergunta clínica: a perda de peso diminui a mortalidade e a morbilidade de doenças cardiovasculares em diabéticos tipo 2 (DM 2)?
Desenho: Ensaio clínico aleatorizado que incluiu 16 unidades de saúde dos Estados Unidos da América. Um total de 5145 DM2 obesos ou com excesso de peso foram aleatorizados em dois grupos. O grupo experimental foi submetido a uma intervenção intensiva de estilos de vida com o objectivo de perderem peso que envolveu diminuição da ingestão calórica e aumento do exercício físico. O grupo controlo apenas recebeu informação de suporte de educação para a saude sobre a diabetes. O outcome primário foi um composto que incluiu morte por causas cardiovasculares, enfarte não fatal, AVC não fatal e internamentos por angina.
Resultados: O follow-up médio foi de 9,6 anos. O grupo submetido à intervenção intensiva do estilo de vida teve maior perda de peso, melhor perfil de hemoglobina glicada e melhorou o seu perfil de factores de risco cardiovascular. O outcome primário foi observado em 403 indivíduos do grupo experimental e em 418 indivíduos do grupo controlo o que corresponde a 1,83 e 1,92 eventos por 100 pessoas-ano (IC95% 0.83 a 1.069, P=0.51).
Conclusão: A intervenção intensiva nos estilos de vida contribuiu para uma efectiva perda de peso mas não teve impacto na redução da morbi-mortalidade cardiovascular dos doentes com diabetes tipo 2 obesos ou com excesso de peso.
Comentário: Epidemiologicamente observa-se um aumento da prevalência de DM em todo o mundo, com a obesidade a assumir-se cada vez mais como uma epidemia global. Com a progressiva “ocidentalização” dos estilos de vida, as doenças cardiovasculares têm e continuarão a ter implicações major na saúde constituindo uma das principais causas de morte na população diabética. Acrescente-se ainda que, associada à DM2, muitos doentes apresentam dislipidémia associada. Assim, para além do controlo do peso e glicémico, deve-se (seguindo as Normas de Orientação Clínica em vigor) realizar um controlo estrito do valor de LDL, atingindo patamares inferiores a 70mg/dl (risco CV muito elevado ) ou <100 mg/dl (risco CV elevado). Contudo, este estudo vem juntar-se a outros que nos apontam no sentido de que certas medidas preventivas “clássicas” poderão, na prática, não produzir os resultados teoricamente esperados.
