Porque pesamos as grávidas por rotina?




Pergunta clínica: Pesar as grávidas por rotina durante as consultas de saúde materna poderá reduzir o excessivo aumento ponderal durante a gravidez?

Desenho do estudo: Ensaio clínico randomizado e controlado, num centro terciário obstétrico em Melbourne, Austrália. A população foi constituída por grávidas saudáveis, com idades compreendidas entre os 18 e os 45 anos, sendo necessário que a vigilância da gravidez tivesse início antes das 21 semanas de gestação. Como critérios de exclusão consideraram-se as mulheres com comorbilidades médicas, abuso de substâncias ou não fluentes em língua inglesa. Em todas as consultas o grupo intervenção foi pesado e esclarecido pelo médico quanto às normas e guidelines recomendadas pelo Institute of Medicine (IOM) relativamente ao aumento de peso gestacional e suas consequências deletérias. O grupo intervenção foi pesado rotineiramente em todas as consultas e, adicionalmente foram-lhe explanadas as recomendações quanto ao adequado aumento de peso gestacional, tendo o grupo controlo apenas sido pesado no início do seguimento e às 36 semanas. O outcome primário deste estudo foi a diferença de ganho ponderal entre os grupos, sendo os outcomes secundários o aumento de peso de acordo com as recomendações do IOM, a morbilidade materna e neonatal. 782 mulheres aceitaram participar neste estudo, tendo sido randomizadas para o grupo controlo 396 grávidas e 386 grávidas para o grupo intervenção.

Resultados: Não se encontrou diferença com significado estatístico relativamente ao ganho ponderal entre o grupo intervenção e o grupo controlo (0,54 kg/semana vs 0,53 kg/semana, p=0,63). A proporção de grávidas que teve um aumento de peso superior ao recomendado foi semelhante em ambos os grupos (75% no grupo intervenção e 71% no grupo controlo, p=0,21). Apesar de não terem existidos diferenças quanto ao parâmetro Índice de Massa Corporal, verificou-se uma tendência, ainda que não significativa, para o aumento ponderal excessivo ser superior em mulheres com excesso de peso/obesidade no grupo rotineiramente pesado. Não existiram igualmente diferenças estatisticamente significativas nos outcomes secundários, maternos e neonatais, entre os dois grupos. 

Comentário: Este estudo, surpreendente na minha perspectiva, leva-nos a reflectir sobre a efectividade de muitas das medidas que adoptámos como rotina: será que estaremos, de facto, a ser efectivos ou apenas mecanizados? A mensagem estará a ser passada de forma centrada no paciente ou centrada nas convicções do médico? Por outro lado, este estudo decorreu num centro terciário de cuidados, onde a relação médico-utente pode não ter sido estabelecida de forma sólida, influenciando desta forma os resultados.  

Artigo original: BJOG

Por Ana Rita Magalhães, USF Topázio



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