Os exames médicos que os portugueses acham que devem fazer

Por Vítor Cardoso, USF Gualtar 


 

Pergunta clínica: quais os serviços de saúde (exames, testes, rastreios) que são considerados necessários e com que frequência pela população geral adulta portuguesa?

Desenho: Estudo observacional, transversal de base populacional. Incluiu uma amostra de 1000 participantes, com idades entre 18 e 97 anos, 52% mulheres. Os dados foram obtidos através de entrevista telefónica. Para cada serviço de saúde foram determinadas proporções e estimativas de prevalência para a população, tendo em conta se os participantes consideravam determinado serviço necessário e com que frequência.

Resultados: Entre os adultos portugueses estudados, 58,9% considerava gozar de um estado de saúde bom ou excelente. Mais de 99% (intervalo de confiança de 95% (IC): 98,5-99,6) acreditavam que deveriam realizar “análises gerais” de rotina de sangue e urina, em média, de 12 em 12 meses. Dos entrevistados, 87,4% (IC95%:85,3-89,3) referiram ter realmente realizado essas análises. Dos 15 serviços de saúde analisados, 14 foram considerados periodicamente necessários por mais de 60% dos entrevistados e 37,7% (IC 95%:34,5-41,1) referiram que utilizaram os serviços de saúde por sua iniciativa própria.

O estudo concluiu que parece haver uma tendência para o uso excessivo de recursos, uma vez que, a maioria dos portugueses acreditam que devem utilizar (e referiram utilizar) um grande número de serviços de saúde anualmente.

Comentário: Muitas das estratégias para um uso racional dos serviços de saúde preventivos estão orientadas para o lado médico da relação médico-doente, indiferentes aos valores e crenças dos doentes. Tal como noutros aspectos, urge atribuir um poder informado aos doentes nas decisões em saúde, pois este poder parece estar subvalorizado. Uma abordagem centrada no doente poderá incluir a informação e discussão dos riscos e benefícios das intervenções preventivas e testes médicos. Assim, procurar-se-á implementar uma prevenção quaternária dos serviços de saúde e atingir uma utilização mais racional. Pela sua pertinência, este é um estudo que vale a pena ser lido na íntegra.


Artigo original

 

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