
Outras leituras: “O meu Pé de Laranja Lima” por José Mauro de Vasconcelos, Editora Dinapress.
Não é fácil escolher o livro que mais me tocou. Quando merecordo que a leitura foi o meu refúgio, desde que aprendi a ler. Nãoporque em que em casa abundassem livros. Havia-os, mas eram da minha tiaprofessora primária e não estava autorizada a tocá-los, ou eram asnovelas dos meus pais, que sendo da classe média baixa, não davamprioridade a leituras mais profundas, que a oferecida pelos romances decapa azul e apenas autorizados depois dos meus 12 anos.
Nos anos sessenta, a censura existia e em casa os valores eprioridades eram outros. Ainda hoje me pergunto como teria sido a minhaadolescência se as bibliotecas não existissem, com a sua enorme colecçãoque me iam enchendo a imaginação como Pearl Buck, Jorge Amado, EricoVeríssimo, Tolstoi ou então se me tivessem deixado ler os livrosescondidos…
Mas perguntaram-me que livro “ mais me tocou”…Bom, nessaquestão não tenho dúvidas: “O meu Pé de Laranja Lima” de José Mauro deVasconcelos, conseguiu ultrapassar a marca do “Pequeno Príncipe” deSaint-Exupéry ou do livro de St Michèlle.
O Zézé e o seu amigo Portuga foram meus companheiros tantasvezes, que pensei fazer parte do livro. Uma amiga, anos depois, aocontar-lhe esta experiência, perguntou-me quantos lenços de papel gasteicom lágrimas ao ler o livro (parece ser comum a choradeira nasadolescentes)…Usei lenços de pano, mas eram tantas as lágrimas quesentia os olhos a arder…
O livro (1ª edição), para desgosto meu, desapareceu da minhaprateleira, pois tanta vez o emprestei, mas está gravado na minhaimaginação. O Zézé descrevia as suas descobertas (em regra discutidascom seu irmão mais novo, Luís, ou com o maravilhoso Pé de Laranja Lima,pequena árvore no seu pequeno quintal de casa), a sua raiva (contra asreacções do pai e outros que não conseguia compreender) e a gratidão(sobretudo para com o seu amigo Portuga, um taxista imigrado no Brasil)sempre de um jeito maravilhoso.
Descobertas: “Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estavamuito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão eensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque emcasa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado efazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas”
Raiva: “( Zézé chorando contou a Portuga) …não tema, voumatar meu pai mas não desse jeito. Eu o vou apagando devagarinho no meucoração até um dia não mais lá estar” Gratidão: (No fim do livro, já emadulto) “Foi você, quem me ensinou a ternura da vida, meu Portugaquerido. Hoje sou eu que tento distribuir as bolas e as figurinhas,porque a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vezes sou feliz naminha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum.” Não pareienquanto não li a colecção completa de José Mauro Vasconcelos, que com asua escrita cheia de ternura escreveu ainda muitas outras parábolasmaravilhosas, como “ rosinha minha canoa”, mas o Zézé será sempre o meuherói e companheiro nas descobertas da vida!
