Somos Mourinho

 

Relembrando a nossa infância, num gesto ubíquo a toda a humanidade, encontramos uma das maiores lições para o crescimento saudável e equilibrado: errar faz parte do Homem e é essencial à sua felicidade. Na aprendizagem de uma conquista ancestral, a posição bípede, todos enfrentamos o fracasso e não desistimos.
A chave crucial para a não desistência foi a motivação, o encorajamento pelos nossos pais e a confiança mútua na nossa capacidade de ser bem sucedidos.
A resiliência, qualidade inata que a todos pertence, tem de ser alimentada em todo o desenvolvimento da vida humana.
Sendo lusitanos, e depois Portugueses, esta virtude está enaltecida na nossa natureza. Mesmo antes de 1143 que somos incansáveis lutadores e corajoso vencedores. Tomemos os exemplos mais remotos como Viriato que não desistiu enquanto enfrentava a  ocupação romana; D. Afonso Henriques que não baixou os braços até fundar o nosso Portugal; Infante D. Henrique que projectou uma aventura de 200 anos ambicionando sempre maiores conquistas e não declinando com cada intempérie e ilusão de vidas de bravos marinheiros.
No Portugal do século XX, foi de novo essa indómita vontade de romper velhas fronteiras, de rasgar novos horizontes e propor novos modos de viver em sociedade que impulsionaram homens como João de Barros, João de Deus, Teófilo Braga e outros ilustres pensadores que lutaram por um ideal republicano e democrático, ímpeto revolucionário que renasceu nos capitães de Abril
Este ADN cultural que ciclicamente se vem revelando na nossa História, com maior ou menor intensidade, tem conhecido recentemente, dois exemplos de excelência, no desporto, com os quais me identifico. Refiro-me a Cristiano Ronaldo que pelo árduo trabalho e motivação, alcançou por duas vezes a bola de ouro e aludo também a  José Mourinho que se destacou nos campos de futebol pela execução de uma função muito distinta, e que tantas vezes os nossos pais e educadores interpretam ao longo da nossa vida, iluminar o espírito com persistência e confiança na transformação das qualidades inerentes a cada um em produto.
Enquanto estudante de Medicina, tem acrescido relevo como ídolos perante pequenas vicissitudes que possam surgir no decorrer da vocação que abracei há 3 anos, grandes médicos como Ricardo Jorge que foi questionado na sua visionária proposta de medidas profiláticas contra a peste bubónica que assombrou a invicta no século XIX, Sousa Martins que nunca desistiu da prática da Medicina humanista e sensível à complexidade de um Homem que se iguala na sua pura unicidade a qualquer par, independentemente de qualquer ideologia, nível sociocultural, cor ou religião; o neurologista Egas Moniz que honrou o homónimo que há mais de 800 anos havia também sido exemplo de grande rectidão e lealdade, ao ser galardoado com o Nobel de Fisiologia e Medicina em 1949, na quinta proposta apresentada como candidato ilustre e merecedor desse destaque na medicina mundial e, na actualidade, portugueses que se destacam na investigação como António Damásio, Sobrinho Simões e altivo o professor Carlos Caldas, que sem dúvida representou uma forte motivação na minha escolha da Medicina como área de estudo e vida profissional, pois, além de exemplo de inovação e construção da medicina da actualidade, pelos trabalhos na luta contra o cancro da mama, demonstrou que seria possível tamanho sucesso sem nunca esquecer que por vezes também se falha “em ciência as coisas mais importantes são: 1- saber fazer perguntas, 2- duvidar das perguntas 3- perseverança, pois na maior parte das vezes as experiências não funcionam”1.
Somos portugueses, herdamos uma plêiade de heróis que não desistiram, caíram mas aprenderam a andar.  O desafio que se nos coloca é saber transmitir aos mais novos e aos vindouros esta ideia de que errare humanum est, mas que a audácia e inteligência nos faz aprender com o erro, seguir em frente e fazer bem aquilo que se nos impõe, o devir.
Se não fôssemos Mourinho, desde esses tempos imemoriais, será que nos poderíamos orgulhar de sermos, neste século XXI, uma das nações, ou melhor, uma das culturas mais estáveis do Mundo?…
Ana Lídia Rouxinol Sampaio Dias

[1] Entrevista a Professor Carlos Caldas, por Ana Lídia Rouxinol-Dias, 12 de dezembro de 2010.

 

MaisOpinião - Ana Lídia Dias
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