Por Sofia Pinto, USF São João do Porto
Enquadramento: Muitos fumadores e profissionais de saúde acreditam que o tabagismo diminui a ansiedade, podendo esta crença interferir com a cessação tabágica. Este estudo pretendia verificar se a cessação tabágica bem sucedida ou a recaída após tentativa de cessação tabágica estão associados a alteração da ansiedade.
Desenho do estudo: foram avaliados, ao longo de 6 meses, 491 doentes que recorreram ao Serviço Nacional de Saúde, em Inglaterra, para efectuar cessação tabágica instituindo terapêutica de substituição de nicotina. Foi comparado o nível de ansiedade dos participantes no estado basal e após tentativa de cessação tabágica.
Resultados: Verificou-se uma diminuição em 9 pontos, na ansiedade, naqueles que foram bem sucedidos, e um aumento em 3 pontos naqueles que tiveram uma recaída.
Conclusão: Ao contrário do que se poderia pensar, a cessação tabágica, bem sucedida, diminui os níveis de ansiedade. Já os doentes que têm uma recaída sofrem um aumento de ansiedade a longo prazo.
Comentário: O efeito potencialmente ansiolítico associado ao tabagismo tem sido controverso e sujeito a estudos. Alguns autores defendem que este efeito provém da resolução dos sintomas de privação, outros acreditam que esteja relacionado com o efeito das endorfinas, do ácido gama-aminobutírico e da serotonina, cujos receptores são activados pela nicotina resultando na libertação destes neurotransmissores no cérebro. Não obstante os potenciais efeitos ansiolíticos do acto de fumar, neste estudo verifica-se que uma tentativa de cessação tabágica que não seja bem sucedida está associada a um aumento da ansiedade a longo prazo, o que poderá desmotivar o doente para uma nova tentativa. Compreende-se, desta forma, a relevância de uma intervenção bem planeada de forma a obter o melhor resultado possível, depreendendo-se que a formação dos profissionais de saúde para executarem intervenções eficazes é preponderante.
