Tempo de sombras sobre os idosos

Há pouco tempo esteve na consulta um casal de idosos com quase 93 anos. Vinham pela primeira vez à minha USF.

Os motivos da consulta eram de pura rotina.

Chamou-me a atenção o ar ternurento e cúmplice com que trocavam olhares. O modo como a senhora – que está em melhores condições físicas e mentais – acariciava a mão do marido. Isto num casal que tanto dependia um do outro nas tarefas da vida diária, tal como pude constatar quando fui fazer um domicílio por doença de um dos membros da família. O marido quase não ouve, mas com a interpretação da esposa, a vida fica simplificada.

Trabalharam toda a vida em Lisboa mas não tinham mais que a antiga 4ª classe – na altura “não nos deixaram estudar mais”!

A mulher ainda cuida, para além do marido, de uma irmã com perto de 90 anos. Não têm filhos mas são apoiados por familiares afastados. Vivem com cerca de 1.200 Euros das reformas – “dantes era uma reformazita bem boa, mas agora não está fácil”, comentou um deles. Habitam uma casa arrendada e pagam cerca de 300 euros mensais. “Quando vou levantar as reformas deixo sempre, pelo menos, 250 euros para as facturas que lá caem”, dizia o marido, ficando com cerca de 600 euros para a alimentação, vestuário, medicamentos e para pagar o apoio da IPSS.

Depois de mais de 6 anos na ARS Norte retomei, com imenso prazer, as funções de médico de família na USF que, na altura, ajudei a criar. E este regresso também me colocou, outra vez, no mundo real tal qual é. E estar próximo da realidade, junto das pessoas, é muito importante para quem, como eu, é médico de família!

Que vai ser destas pessoas quando a senhora que cuida do marido e da irmã, morrer? Quem vai cuidar deles, eles que não têm uns milhares de euros para dar como entrada num Lar?

Trago aqui esta história pelo que ela nos mostra sobre o que a sociedade e os governos ainda têm de fazer para que estes ternurentos casais, que quase não têm família, possam suportar a vida na morte de um dos elementos do casal.

A sociedade, custe o que custar, tem que ter respostas adequadas para quem durante uma vida contribuiu para o bem comum e colectivo.

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