Uma intervenção simples incentiva os médicos a sentarem-se junto ao leito do paciente

 

 

Pergunta clínica: A colocação de uma cadeira junto ao leito do paciente aumenta a probabilidade do médico se sentar durante este encontro?

População: médicos hospitalares de Medicina Interna e pacientes
Intervenção: cadeira colocada a cerca de 90 cm da cama do paciente
Comparação: cadeira na sua localização habitual (guardada num armário da sala com a porta fechada)
Outcome: decisão binária do médico se sentar ou não na cadeira em qualquer momento do encontro com o paciente (primário); avaliar a satisfação do paciente, o tempo que o médico permaneceu na sala, bem como a perceção de ambos deste mesmo tempo (secundários)

Enquadramento: Estudos prévios mostram que os médicos hospitalares se sentam junto ao leito do paciente num em cada cinco encontros. Mostram ainda uma melhoria da comunicação médico-doente e uma maior satisfação do paciente quando esta atitude é tomada.

Desenho do estudo: Ensaio clínico aleatorizado, unicêntrico e duplamente cego, que decorreu entre abril de 2022 e fevereiro de 2023. No grupo de intervenção (60 encontros com pacientes), a cadeira foi colocada a uma distância de até 90 cm do leito. No grupo de controlo (65 encontros), a cadeira foi deixada na sua localização habitual. Os encontros com os pacientes foram observados por estudantes de medicina envolvidos no estudo. Médicos e pacientes foram ocultados da intervenção e do objetivo do estudo.

Resultados: No geral, os médicos sentaram-se com mais frequência no grupo de intervenção do que no grupo de controlo (63% vs 8%). Não houve diferenças significativas noutros comportamentos dos médicos, incluindo a apresentação, explicar o seu papel no cuidado do paciente e oferecer um aperto de mão. Além disso, não houve diferença na duração média dos encontros nos dois grupos. A satisfação do paciente, medida usando uma ferramenta validada com uma pontuação de 0% a 100%, mostrou um aumento de 3,9% na pontuação média no grupo de intervenção (88,0% vs 84,1%, P=0.02). Especificamente, os pacientes no grupo de intervenção sentiram-se mais confiantes com o plano do médico (58% vs 35%, P=0.01) e mais informados sobre o seu plano de tratamento (72% vs 52%, P=0.03). Uma análise de sensibilidade mostrou que um médico sentado se associava a um aumento de 5% na satisfação do paciente.

Comentário: Num outro estudo de 2024, a montagem de cadeiras dobráveis nas paredes dos quartos hospitalares, juntamente com uma campanha educacional para promover o ato de sentar dos médicos, associou-se a um aumento da frequência do mesmo. Neste estudo, uma estratégia sem custos associados e de baixa tecnologia, focada no comportamento subconsciente dos médicos, demonstrou igualmente um impacto significativo da etiqueta do médico na experiência do paciente.

Artigo original: BMJ

Por Jorge Talhada de Moura, USF Porto Centro

 

 

 

 

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